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Diário de Petrópolis

Edição:
domingo, 22 de novembro de 2020

Edição: domingo, 22 de novembro de 2020


  Colunistas

Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 

A Permanente “Destruição Criativa” e o Planejamento da Indústria de Petrópolis

No nosso último artigo vimos que a indústria de Petrópolis foi duramente atingida por mudanças de política econômica, especialmente mudanças na política de comércio exterior, como a abertura sem planejamento do setor têxtil às exportações no início dos anos 1990. Como uma parte expressiva da atividade industrial na cidade se apoiava direta ou indiretamente no setor têxtil, a abertura abrupta, sem qualquer planejamento para apoiar as empresas na adaptação e modernização da indústria, após décadas de proteção excessiva resultou na destruição de uma parcela significativa da atividade têxtil na cidade.

Também escrevi no último artigo que há pouca reflexão sistemática de longo prazo sobre a indústria de Petrópolis. Destaquei que, no Plano Plurianual 2018-2021, os segmentos industriais que foram identificados como alvo de potenciais estímulos seriam aqueles mais geram empregos e renda no município. Embora a geração de emprego e renda local seja um critério muito importante para o apoio à indústria em Petrópolis, afirmei que ele não pode ser o único, pelo simples fato de que as empresas industriais não competem no vazio: elas competem com outras empresas, em outras cidades e às vezes até em outros países.

Chamei também a atenção para o fato de que o apoio à indústria nesta competição com outras empresas exige que se vá além do momento presente, não se limitando apenas a examinar se a indústria em questão aumenta ou não aumenta o emprego, mas demanda fundamentalmente uma estratégia de longo prazo, ou seja, uma estratégia que considere as perspectivas de evolução do mercado em todos os seus aspectos mais importantes, inclusive seu dinamismo tecnológico, ou seja, sua capacidade para a inovação. Sem uma estratégia de inovação para a indústria petropolitana, ela pode acabar fracassando com o tempo, ainda que gere muitos empregos no presente.

Mas por que a estratégia de inovação é importante? Porque, como afirmou Joseph A. Schumpeter (1883-1950), um dos economistas mais importantes do pensamento econômico moderno: “O capitalismo, então, é, pela sua própria natureza, uma forma ou método de mudança econômica, e não apenas nunca está, mas nunca pode estar, estacionário” (Joseph A. Schumpeter, Capitalismo, Socialismo e Democracia, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1984, p. 112. Todas as citações a seguir são extraídas desta mesma obra).

Vale dizer, o capitalismo não é um sistema estático, em que a competição acontece apenas pelo preço mais baixo: pelo contrário, a principal forma de competição no capitalismo é pela inovação. Schumpeter esclarece: “O impulso fundamental que inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria” (p. 112). A inovação é a principal forma de competição porque ela dá à empresa inovadora uma vantagem que seus competidores não conseguem alcançar de imediato. Por exemplo, quando uma empresa lança um novo produto, leva tempo até que seus competidores consigam produzir um concorrente efetivo (o leitor deve imaginar a vantagem da Apple quando lançou o iPhone…). O mesmo acontece quando uma empresa utiliza nova tecnologia para produzir, ou adota uma nova forma de organização, ou ainda descobre um novo mercado. Essa vantagem significa maiores lucros por um determinado período de tempo, pelo simples fato de que os competidores não conseguem imitar a empresa inovadora rapidamente (enquanto que a competição por redução de preços faz exatamente o contrário: diminui os lucros).

Ocorre que o efeito desta competição é uma permanente transformação da economia, em que novos produtos desalojam produtos obsoletos, novas tecnologias deslocam tecnologias menos eficientes, novas formas de organização e novos mercados acabam por eliminar empresas que usam formas de organização superadas e atuam em mercados menos lucrativos. Logo, ao mesmo tempo em que surgem, ou prosperam empresas inovadoras e indústrias dinâmicas, outras empresas e indústrias estão desaparecendo. Como Schumpeter apontou, trata-se de um processo “que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova. Esse processo de Destruição Criativa é o fato essencial acerca do capitalismo” (p. 112-3).

A partir do momento em que se reconhece que a economia é movida por uma Destruição Criativa, surgem vários desafios para o planejador: quais indústrias estão progredindo, e quais estão decaindo? As indústrias locais estão em que grupo, no grupo das indústrias que estão progredindo, ou decaindo? Mesmo entre as indústrias que estão prosperando, será que as empresas locais estão empregando as melhores tecnologias e fabricando os melhores produtos? Os mercados em que as empresas locais atuam são os mais dinâmicos, ou são mercados que estão se extinguindo? Pode ser contraproducente concentrar as atenções apenas no emprego sem antes tentar responder a essas questões.

Pode ser que o leitor considere essas perguntas uma preocupação exagerada, mas basta considerar por um instante: alguém se lembra das máquinas de escrever, uma das indústrias mais dinâmicas no início dos anos 1980? Ou, mais recentemente, do mercado de mp3 players (como o iPod)? O planejamento de uma indústria local, em particular da indústria de Petrópolis exige que se avalie essas questões, juntamente com os próprios empresários da cidade.

 

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domingo, 22 de novembro de 2020

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