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Detentas escrevem nova história a partir do projeto Trabalhando a Liberdade | Manaus | A Crítica | Amazônia – Amazonas

Projeto tem mulheres qualificadas que trabalham na costura, horta, manutenção, lavanderia e logo devem se dedicar à panificadora

“Aqui não é o fim de tudo, mas sim o recomeço de uma nova história. Cada amanhecer é um dia de esperança para nós, já fomos vistas com maus olhos, mas hoje com o nosso trabalho sentimos que estamos nos preparando para voltar a sociedade e ao seio da nossa família. Quando eu sair daqui eu não vou precisar falar que eu estava presa, pois eu estava trabalhando e estudando“, essas são as palavras da detenta Heliane Pereira, 42, que cumpre pena em regime fechado por tráfico de drogas.

Heliane é uma das voluntárias do ‘Trabalhando a liberdade’, um projeto dentro da Penitenciária Feminina de Manaus (PFM) que tem 100% das detentas trabalhando. O trabalho por remissão consiste em diminuir um dia da pena a cada três dias de trabalho. Hoje o projeto tem mulheres qualificadas que trabalham na costura, horta, manutenção, lavanderia e logo devem se dedicar à panificadora.

O diretor da unidade Paulo Sergio Cordeiro afirma que todas trabalham porque querem, por terem prazer em fazer algo. “Antes elas passavam o dia trancadas dentro das celas, muita briga, muita confusão. Hoje elas são trabalhadoras e tudo elas querem fazer, mesmo no sábado que é a folga delas, elas querem trabalhar. Mulher trabalha de uma maneira mais dedicada, do jeito que você ensina, elas fazem e vemos o capricho no trabalho delas”, relatou.

Na sala de costura do presídio elas trabalham, desde o começo da pandemia, na fabricação de máscaras descartáveis e já produziram 20 mil para o Estado. “É gratificante saber que mesmo presas, estamos ajudando a salvar vidas do povo amazonense, com o nosso trabalho”, contou uma das internas.

Na manutenção, as mulheres também fizeram cursos de pintura, manutenção predial, jardinagem e em breve farão de refrigeração de ar-condicionado.

Brena Fárias, 29, relatou que se sente valorizada agora, podendo fazer algo que sabe. “Os cursos me mostraram que eu tenho capacidade de fazer algo, de aprender e de trabalhar. Essa é uma oportunidade que veio para mudar nossa vida e não dá para desperdiçar. Mesmo presa eu me sinto valorizada aqui dentro”, destacou.

A horta do presídio é um dos trabalhos que mais enche o diretor  de orgulho. “Na horta conseguimos ver que elas gostam do que fazem. Veja só, aqui tem pé de bananeira, semente de girassol, maxixe, quiabo, couve, pimenta de cheiro e do jeito que estamos fazendo, tudo nasce. Temos um pé de maçã, não sabemos se vai produzir, mas se virar uma macieira, a gente já ganhou, por que ninguém tem um pé de maçã”, disse ele cheio de satisfação.

Meirivane Martins, 24, agradece a oportunidade de poder sonhar em refazer a vida. “É uma alegria ver o nosso trabalho florescendo, saber que valeu a pena nosso suor e que cada plantinha está crescendo e dando fruto. Esse projeto veio nos mostrar que alguém confia na gente, que é possível refazer a vida e levar ensinamentos daqui. Agora nós temos mais esperanças que as portas vão se abrir e nossa vida vai mudar”, concluiu a detenta.

Remuneração

Cordeiro revelou que a intenção do secretário de administração penitenciária, Coronel Vinicius é tornar o prédio um centro tecnológico para que detentas de outras unidades possam ir passar o dia estudando, trabalhando e apenas à noite voltar para o presídio. Além disso, uma das ideias é incluir todas as detentas no projeto que paga um salário mínimo para cada trabalhadora e esse valor seria divido entre ela, o governo, a família e a vítima, se houver.

Ressocializar

A socióloga Erika Carmo explica que é importante o poder público enxergar as necessidades do sistema prisional. “A ressocialização precisa vir de um processo educativo que assegure o direito a dignidade, pois a maioria das mulheres em situação de encarceramento vem de um contexto de pobreza e da falta de oportunidade. Conseguir encontrar um refúgio mesmo estando presa é uma nova construção na existência de cada uma”, disse.

O projeto de ressocialização tem um ano e cerca de dez detentas já foram beneficiadas com a remissão do trabalho, e outras estão aguardando o dia de sair.

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