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Crítica | Verlust (2020): sobre perdas, danos e a complexidade da arte

Em uma casa o mundo pode girar, parar, girar outra vez e mudar seu rumo. À beira-mar, o cenário se constrói como a mistura perfeita entre o futurismo de suas linhas retas e janelas largas à tradicional formação hierárquica entre patrão e empregado, o que também encontra diversas possibilidades. Com o abstrato dos sentimentos e a mistura entre escolas arquitetônicas e a própria natureza, “Verlust” é uma viagem às questões humanas mal resolvidas, que encontram espaço entre a perfeição das formas e o girar do mundo dentro de uma própria casa.

Frederica (Andrea Beltrão) é a empresária e assessora da famosa Lenny (Marina Lima), cantora de trajetória longa que está vivendo a prévia do que pode se tornar sua biografia. Acostumada a controlar horários, dias, roupas, caminhos e lugares pelos quais sua chefe passou ao longo de mais de vinte anos, Frederica acostumou-se à sensação de pulso firme, de encontrar a minuciosidade de suas escolhas através dos olhos de outras pessoas. Não é à toa, então, que a permanência de João (Ismael Caneppele) naquela gigantesca e arejada casa torne tudo irônica e gradativamente sufocante.

De início, o espectador mergulha no dia a dia de Frederica com a sensação de que ali está uma mulher imponente, cuja personalidade magnética é a verdadeira protagonista do relacionamento entre ela e a cantora. E, enquanto a primeira conversa acompanhada entre ela e João soe altamente condescendente, aos poucos o filme apresenta as camadas por baixo da alta costura e dos cortes sempre impecáveis. Aliás, a impecabilidade aqui é antônima do desenrolar da trama: João é o responsável pela biografia de Lenny, e sua presença naquela casa se transforma em uma constante, atraindo a verdadeira perda de comodidade, da camada social que faz parte da vida dos três adultos que giram em torno da cantora.

Isso porque Frederica também passa o seu tempo assessorando a vida de sua família, composta por Constantin (Alfredo Castro) e a filha, Tuane (Fernanda Pavanelli). Enquanto o marido é fotógrafo e complementa o trabalho da protagonista e da própria Lenny sob a lente de sua câmera, a qual muitas vezes é sem filtro algum, a filha é uma exímia musicista, responsável pelas notas mais belas em seu contrabaixo. 

Enquanto a casa se transforma em palco dos dramas da família e dos outros moradores, sua arquitetura chama a atenção do espectador logo nos primeiros instantes. Há um contraste da arte composta em suas linhas retas, enquanto a região rochosa na qual foi construída proporciona um interessante ponto de vista do que a arte consegue alcançar e até onde a natureza a impele por sua beleza quase divina. Para comprovar a teoria, o mar oferece diferentes símbolos aos personagens deste filme.

Para Lenny, o som das ondas serve de ponto de partida para o sossego inspirador na montagem de seu mais novo álbum. Constantin atribui à composição casa versus natureza um quadro para focar e fotografar sempre que possível. Tuane, por sua vez, traz os acordes de uma baleia quase mística encalhada à beira-mar para se comunicar com seu contrabaixo e transmitir seus sentimentos ao vazio que traçou para o universo ao seu redor. João, apesar de ser o convidado daquela complexa teia familiar, parece estar imune às belezas naturais, trazendo seu pragmatismo às questões que acabam atormentando o âmago dos que estão ao redor. Algo que parece ser perfeitamente compreendido por Frederica, que transita entre uma pessoa e outra sem jamais perder a estrutura comportamental à qual esteve habituada por tanto tempo.

Contemplativo do ponto de vista técnico e narrativo, “Verlust” traz os significados das diversas perdas, como sua tradução literal indica, àqueles personagens. Todos precisam abandonar o status quo no qual mergulharam através de suas respectivas artes e, ao mesmo tempo, enfrentam os vazios que os primeiros passos os fazem carecer. Com isso, o diretor Esmir Filho cria uma atmosfera quase surrealista para que seus personagens pudessem combinar estrategicamente ao roteiro que ele co-assinou ao lado de Ismael Caneppele (o João do filme).

Os figurino de Dudu Bertholini e Cintia Kiste, absurdos e incongruentes à realidade, se encaixam nesta atmosfera, traduzindo as diversas perdas enquanto o dia a dia simplesmente acontece, com o mundo girando dentro daquele microuniverso. Por sua vez, a fotografia de Inti Briones é a grande responsável por exaltar todas as belezas ligadas à arte, desde a escrita de João ao isolamento autoimposto de Tuane, passando pelos momentos de sobriedade musical e questionamento inspiracional de Lenny. Mas também é pela lente do fotógrafo que a solidão de Frederica ganha espaço de forma gradual, traduzindo a sensação em momentos de sufoco, nos quais a protagonista não encontra solução para a interrupção de sua sistemática personalidade.

Aliás, Andrea Beltrão merece créditos por compor uma mulher tão frágil por detrás de suas camadas quanto imponente diante das câmeras. E a forma com a qual a atriz despe sua personagem de sua vaidade é memorável. Por sua vez, Alfredo Castro cria um Constantin liberto de quaisquer amarras sociais, mas ainda preso aos desejos de sua esposa, mesmo quando estes não têm ligação alguma com o tom sexual do relacionamento. Ainda sobre o elenco, Marina Lima entoa personalidade enigmática a sua Lenny, enquanto Ismael Caneppele transita entre a arrogância de um escritor ao dualismo de um homem em busca de satisfação. Por fim, a Fernanda Pavanelli traz o talento de Tuane em seu dedilhar, mas a fúria da personagem é composta formidavelmente pela musicista em seu primeiro papel no cinema.

Apesar de sua ambição, “Verlust” muitas vezes se torna um exercício de linguagem que está além de seu roteiro. O diretor, que acertou em cheio em obras como “Os Famosos e os Duendes da Morte” e na primeira temporada de “Boca a Boca”, aqui traz seu olhar clínico para a construção de cenários, o qual muitas vezes parece destoar do roteiro. Em consequência, o filme patina ao levar o espectador a um cenário complexo, do microuniverso que se passa naquela casa, mas que gira em momentos sem dizer nada. Infelizmente, então, a perda acaba sendo ao filme em si.

Ainda que mereça ser conferido por trazer uma produção de preciosismos técnicos, “Verlust” se perde ao não encontrar o casamento ideal entre o contraste de um cenário naturalmente espetacular e a complexidade de personagens que muitas vezes flutuam diante de suas possibilidades. Ali, o mundo pode girar, parar, girar outra vez e mudar seu rumo. Ou não sair do lugar.