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Costanza Pascolato comenta a resiliência da nova couture – Vogue

Parte da coleção de alta-costura para o verão 2021 da Schiaparelli, com looks que trazem tops e bolsas “tanquinho” e botas com falsos dedos dourados, evocando o biomorfismo da arte surrealista, combinado a silhuetas teatrais (Foto: Divulgação)

Ousadia foi o que não faltou nas apresentações de alta-costura para o verão 2021, dando a entender que a couture está, sim, pronta para uma reinvenção. Contrariando a ideia de encontrar-se “prestes a acabar”, como já foi sugerido muitas vezes, especialmente durante e depois de grandes crises, o que se viu foi exatamente o oposto. E o imaginado momento para o full stop, que seria agora, não aconteceu.

Ao demonstrar enorme resiliência – em roupas ultraluxuosas feitas à mão para muito poucos –, a couture repensa e atualiza sua dinâmica sem abandonar todo o know-how histórico que tem. Quase totalmente digital e, portanto, com alcance gigantesco, a temporada foi bem diferente dos tempos de desfiles exclusivamente presenciais, impulsionando a alta-costura para formas mais relevantes e inclusivas de criar, se exibir e se conectar com a atualidade. Assim, as maisons brilharam ao mostrar que, talvez, essa atual maneira phygital (física + digital) tenha provocado uma “personalização” de DNA ainda mais intensa e profunda.

Parte da coleção de alta-costura para o verão 2021 da Schiaparelli, com looks que trazem tops e bolsas “tanquinho” e botas com falsos dedos dourados, evocando o biomorfismo da arte surrealista, combinado a silhuetas teatrais (Foto: Divulgação)

Parte da coleção de alta-costura para o verão 2021 da Schiaparelli, com looks que trazem tops e bolsas “tanquinho” e botas com falsos dedos dourados, evocando o biomorfismo da arte surrealista, combinado a silhuetas teatrais (Foto: Divulgação)

Foi o que aconteceu em performances como a do jovem diretor criativo da Schiaparelli, Daniel Roseberry, com sua estética provocante, arrojada e audaciosa. “Estava na hora de nos afastarmos da misógina ideia de que a alta-costura tem de ser cheia de adornos, delicados floreados e babados”, declarou Roseberry. “Para mim, a couture deve ser um laboratório de técnicas a serem aperfeiçoadas.”

A partir do surrealismo, tão caro a Elsa Schiaparelli (1890-1973) nos anos 1930 e 40, quando a estilista italiana fez até collabs com o artista espanhol Salvador Dalí (1904-1989), Roseberry mostra 25 imagens de excessos fascinantes tanto nas proporções das roupas como em acessórios extraordinários. Cria uma Couture com “C” maiúsculo e com a insolência sob medida para o século 21.

Parte da coleção de alta-costura para o verão 2021 da Schiaparelli, com looks que trazem tops e bolsas “tanquinho” e botas com falsos dedos dourados, evocando o biomorfismo da arte surrealista, combinado a silhuetas teatrais (Foto: Divulgação)

Parte da coleção de alta-costura para o verão 2021 da Schiaparelli, com looks que trazem tops e bolsas “tanquinho” e botas com falsos dedos dourados, evocando o biomorfismo da arte surrealista, combinado a silhuetas teatrais (Foto: Divulgação)

Comparada com outras grifes, a Schiaparelli tem o tamanho certo para que Roseberry exercite sua liberdade criativa e desafie a ideia do que é tradicional, fazendo uma espécie de “alta-costura alternativa”. O vídeo de apresentação começa com um vestido sem alças adornado por enorme laço rosa-choque na saia e um top com a imagem deum musculoso “tanquinho” executada em couro moldado luzidio. Este trompe-l’oeil corporal surge também em acessórios e bijoux como uma “bolsa-busto”. Há ainda sensacionais botas com falsos dedos dourados, rostos moldados em metal, brincos-orelha, olhos-joias ou fantasmagóricas unhas/garras infinitas. Representam o biomorfismo da arte surrealista, que evoca as muitas formas dos seres vivos.

Teatrais silhuetas alongadas, com uma gigantesca fita métrica, ou monumentais palas franzidas, além de peças street revisadas nas proporções, revelam choques e entrechoques de estilos, formas e dimensões iconoclastas. “Para mim, criar sempre foi estar aqui e agora. E, a cada instante, tudo pode mudar. Sempre teve a ver com correr riscos, buscar o desconhecido, aceitar erros. Para, a partir daí, desenvolver uma estética vibrante”, disse Roseberry, que mostra, na Schiaparelli, a velocidade com a qual a couture consegue captar as transformações do mundo para se ajustar às novas correntes estéticas.