Conheça estilista Jô Pires, pioneiro que aprecia desenhar e não assiste a desfiles

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Ele saiu do interior para se transformar em um pioneiro da moda no Distrito Federal. Natural de Ipameri, cidade do Goiás que fica a 285 km de Brasília, o costureiro Jô Pires é pioneiro na área da alfaiataria na cidade. No ano de 1970, o costureiro se mudou para Brasília a convite de uma socialite que assistiu a um desfile onde ele ganhou os prêmios de primeiro e segundo lugar.

“Tudo começou em cidade do interior nas fábrica Bangu. Elas reuniam costureiros profissionais e dava um tecido para a pessoa trabalhar, eles só organizavam o desfile. Nesse dia, eu ganhei o primeiro e o segundo lugar e uma socialite daqui de Brasília (que a família morava lá) assistiu, gostou e fez o convite. Eu acabei vindo para cá e nós montamos o primeiro atelier numa garagem aí dessas casas na W3”.

Assim, Jô Pires veio parar em terras brasilienses para continuar sua carreira como costureiro. Ele relata que trabalhou pouco tempo como desconhecido até começar a conhecer pessoas importantes e elegantes que ajudaram ele a crescer. O costureiro exemplifica com o antigo evento, “As 10 Mais Elegantes de Brasília”, e explica que das dez candidatas, ele costurava roupa para seis delas e que isso contou muito para sua carreira.

Ele diz que teve sorte quando chegou a Brasília pois é um lugar difícil em relação ao mundo da moda. “Até hoje eu sou respeitado, não sou mais antigo daqui de Brasília, mas sim o que permaneceu mais tempo aqui. Muitos já morreram ou outros foram embora daqui porque Brasília realmente para moda é muito difícil. As mulheres daqui têm um estilo muito clássico, é uma mulher que trabalha. Então, muitos não gostam daqui, mas eu gosto exatamente por isso porque eu sou um costureiro de roupa clássica”, explicou Jô Pires.

Ele ainda conta que faz roupas que durem muito tempo e que um de seus trabalhos foi um vestido de noiva que durou por três gerações, no qual ele fez originalmente para uma mulher que passou para sua filha e depois foi para sua neta.

De berço

“Desde pequeno, eu fui criado no ambiente de costureira, minhas duas irmãs costuravam, minha mãe costurava, então, às vezes eu ficava acordado com ela até de madrugada conversando com ela para não ficar sozinha, aí eu ficava ao lado dela ali. Às veze,s ela me dava uma coisinha para fazer, mas dava tudo errado e eu tinha que desmanchar. Foi nesse ambiente que eu cresci, olhando as minhas duas irmãs que costuram e a minha mãe”, relata Jô.

Apesar de estar inserido neste ambiente, o costureiro conta que ele não queria seguir carreira nessa área e que tinha outros planos. Jô gostaria de ser engenheiro, porém era difícil este sonho se concretizar porque sua família não tinha dinheiro para que ele pudesse estudar fora pela falta da faculdade perto de onde morava na época. Foi este fato que o fez mudar de ideia e seguir a carreira de costureiro. 

Ele comenta que sua mãe não achava uma ideia boa pois a profissão de costureiro sofria injustiça, mas que o ajudava de todo jeito. Ele relata que ela achava que era uma profissão muito ingrata, muito trabalhosa e que às vezes as pessoas não reconheciam. Apesar disso, ele manteve a positividade de que as coisas seriam diferentes em Brasília e continuou sua carreira com o apoio da sua família. “Esse não reconhecia era lá no interior porque na cidade grande a pessoa tem outra cabeça, eu entendi, mas continuei. Pegava um vestido de cliente para fazer, e falava ‘traz um [vestido] que a senhora gosta’ aí fazia um molde em cima daquele e daí comecei a desenvolver até chegar onde eu cheguei”, explica Jô.

“Gosto de desenhar”

Quando questionado sobre o que mais ama sobre sua profissão, Jô não conseguiu escolher uma coisa só. “Eu gosto de desenhar, eu gosto de combinar as cores, gosto de pegar o tecido, tantos metros de tecido e dá-lhe duas, três horas já está o vestido montado. Eu idealizo e faço, então o que é bom é esse processo criativo”. Ele trabalha sozinho com a sua própria loja e é a pessoa que realiza todo o trabalho, desde a idealização até a costura e produção final.

O costureiro também conta a sua experiência ao costurar o vestido para uma candidata de uma edição do Miss Brasília e como isso mudou toda a sua vida. “Eu fiz o vestido de uma candidata do clube do congresso, a Alessandra Lontra. Uma moça muito bonita e nós tivemos uma amizade muito forte. Mais tarde, eu me casei com ela e foi a realização maior da minha vida. Hoje, eu tenho dois filhos, o Carlos Eduardo e a Maria Carolina e agora para completar nasceu Maria Luiza, a minha neta. Esse foi o mais marcante da minha vida. Foi um desfile, a produção de um vestido de miss e acabei casando”, relembra Jô.

O costureiro diz que nunca viu de fato um desfile seu pois sempre estava ajudando nos bastidores e apenas viu por fotografias ou vídeos. “Você tem aquele seu trabalho sendo exposto, o povo delirando, batendo palma, e abraçando. É muito cansativo, mas é uma realização imensa”, finaliza Jô.

Confira a entrevista

: Olha, eu não sou daqui, não nasci em Brasília. Eu sou goiano, nasci aqui perto, eu sou de Ipameri e vim para cá no final dos anos 69 e 70, foi nesse nesse finalzinho de 69 para 70. 

  • De onde surgiu a paixão pela costura?

: Desde pequeno, eu fui criado no ambiente de costureira, minha irmã costurava, minha mãe era melhor costureira de roupa de homem porque ela não gostava de mexer com roupa de mulher. Então, às vezes eu ficava acordado com ela até de madrugada conversando com ela para não ficar sozinha, aí eu ficava ao lado dela ali. Às vezes ela me dava uma coisinha para fazer, mas dava tudo errado e eu tinha que desmanchar. Então, foi nesse ambiente que eu cresci, olhando minha irmã costurar, as minhas duas irmãs que costuram e a minha mãe, então, acho que tem uma certa influência de conhecer tecido, de combinar. Mamãe era muito caprichosa, então começou daí, né? Foi difícil, foi custoso porque minha mãe não queria que eu fosse costureiro. Ela achava que era uma profissão muito ingrata, muito trabalhosa e que às vezes as pessoas não reconhecia. Mas, esse não reconhecia era lá no interior porque na cidade grande a pessoa tem outra cabeça, eu entendi, mas continuei. Pegava um vestido de cliente para fazer, e falava “traz um que a senhora gosta” aí fazia um molde em cima daquele e daí comecei a desenvolver até chegar onde eu cheguei. Costurar o que eu gosto de fazer, é uma beleza, é uma realização quando você gosta de uma profissão e segue o resto da vida com ela.

  • Você gostaria de seguir essa profissão desde criança?

: Eu comecei muito cedo e eu não queria ser costureiro. Você pergunta aqui se toda vida eu quis ser costureiro, mas eu não pensava não. Eu queria ser engenheiro, eu ficava louco para construir casas, edifícios eu achava lindo. Brasília com tantos monumentos maravilhosos e casas lindas, eu fiquei fascinado. Mas, como a família não tinha condição e eu também não sabia fazer muita coisa, não pude estudar fora, ou era  Uberaba, Uberlândia, Goiânia e não tinha como pagar a faculdade. Então aí, eu resolvi de uma hora para outra que eu ia mudar e comecei a costurar.

  • Qual foi a reação da sua família quando você disse que queria seguir essa profissão?

: Pois é, minha família toda vida me apoiou muito, toda vida bateu palma, até mesmo costurando lá em Ipameri. Elas gostavam e minha mãe também às vezes dava algum palpite, ela me ajudava quando eu senti que tinha algum problema alguma coisa.

  • O que você mais gosta dentro da sua profissão?

: Tudo na profissão, na minha profissão, eu gosto. Eu gosto de desenhar, eu gosto de combinar as cores, gosto de pegar o tecido, tantos metros de tecido e dá-lhe duas, três horas já estão vestido montado. Isso que eu mais gosto de fazer. Roupa de festa e noivas eu gosto muito de fazer, de criar. Hoje em dia quase não pego mais costura de fora, hoje eu tenho a loja e eu faço o que eu quero. Eu idealizo e faço, então o que é bom é esse processo criativo. Eu não trabalho com funcionário, eu sou sozinho, eu corto, eu bordo, eu faço tudo na costura

  • Você vestiu presidentes?

: Eu não costurei para presidente da república, eu não faço roupa de homem, eu só faço roupa feminina e muito poucas costuraram comigo. Era difícil você ser costureiro da presidente, costureiro da primeira-dama, é muito custoso porque a gente tem que fechar e ficar por conta só dessa pessoa, aí não dá muito certo, né? É muita confusão, mas costurei para mulher de ministros, mulheres mais elegantes, a esposa do presidente Figueiredo que era muito badalada, a Doris Pires Gonçalves, esposa do Leandro que era Ministro do exército também fazia muita roupa comigo.

Quando ela foi fazer a visita para rainha, eu fiz toda a roupa dela. Peguei Brasília numa numa fase muito glamour, uma fase de mulheres elegantes mulheres que se preocupavam com a beleza de ficar bonitas e de festas lindas no Palácio do Itamaraty. Infelizmente, Brasília perdeu o glamour com a mudança do estilo de governo. Tive muita sorte na época que eu vim para cá porque eu fiquei trabalhei um pouco no começo como desconhecido. Tudo começou em cidade do interior, nas fábrica Bangu que foi onde eu ganhei os prêmios.

Elas reuniam costureiros profissionais para mexer com tecido e dava um tecido para a pessoa trabalhar com e a empresa só organizava o desfile de moda. Nesse dia, eu ganhei o primeiro e o segundo lugar, só o terceiro que não porque aí era muito né? (risos) Nesse desfile, uma socialite daqui de Brasília que a família morava lá assistiu, gostou e fez o convite. Eu acabei vindo para cá e nós montamos o primeiro atelier numa garagem aí dessas casas na W3. Depois, eu passei para uma casa e foi aí que eu comecei a conhecer gente maravilhosa, mulheres elegantíssimas. Na época, teve a escolha das 10 mais elegantes de Brasília e eu costurava para seis. Depois, tinha também “As Maravilhosas do Gigi” que uma coluna do Gilberto Amaral, onde ele colocava as mulheres mais bonitas e isso tudo contou muito na minha vida.

Eu fiquei muito pouco tempo oculto, logo explodiu e o Jô Pires era o queridinho da elegantes de Brasília. Tem uma lista imensa, mas é ruim falar porque às vezes uma não gosta de ser muito citada, existe mulher granfina chique e que não gosta de coluna social, não não faz questão e marido também às vezes por ciúme não gosta que também que se pronuncia o nome da esposa dele.

  • Qual foi o momento mais marcante da sua carreira? Por que?

: Eu fiz muito desfile de miss, eu fiz muitos vestidos de noivas e hoje as mulheres não querem fazer mais, agora aluga, né? Não faz mais aqueles vestidos estonteantes, aquelas coisas lindas. Eu já peguei fazer vestido de noiva que tinha que trancar o atelier porque ninguém não podia ver o vestido da noiva, nem mesmo as madrinhas que faziam comigo. Eu fazia ou as madrinhas primeiro e deixava a noiva por último ou então a noiva primeiro e ficava com as madrinhas.

Foi em um desfile desses de Miss Brasília que eu fiz o vestido de uma candidata do clube do congresso, a Alessandra Lontra. Uma moça muito bonita e nós tivemos uma amizade muito forte. Mais tarde, eu me casei com ela e foi a realização maior da minha vida. Hoje, eu tenho dois filhos, o Carlos Eduardo e a Maria Carolina e agora para completar nasceu Maria Luiza, a minha neta. Então, esse foi o mais marcante da minha vida! Foi um desfile, a produção de um vestido de miss e depois acabei casando. Eu tive muita sorte aqui, graças a Deus. Até hoje eu sou respeitado, não sou mais antigo daqui de Brasília, mas sim o que permaneceu mais tempo aqui. Muitos já morreram ou outros foram embora daqui porque Brasília realmente para moda é muito difícil. As mulheres daqui têm um estilo muito clássico, é uma mulher que trabalha. Então, muitos não gostam daqui, mas eu gosto exatamente por isso porque eu sou um costureiro de roupa clássica. Eu faço roupa para durar muito tempo. Eu já cheguei a fazer vestido de noiva que a mãe casou, depois houve um retoque e ficou para filha e da filha já ficou para neta. São três gerações, eu fiz o vestido e foi até acho que não aproveitar mais porque foram três casamentos com uma distância muito grande de uma cerimônia para outra.

Eu também quero falar com você a respeito dos desfiles de moda. Também é uma realização muito grande você organizar um desfile e mostrar o seu trabalho, cerca de 60, 70 vestidos. Eu já fiz desfile beneficente para muita dessas entidades daqui de Brasília, já fiz para o Rio de Janeiro, já fiz em São Paulo também. Você tem aquele seu trabalho sendo exposto, o povo delirando, batendo palma, te abraçando, você no meio do povo suado e cansado porque desfile cansa muito. Eu fico lá dentro do camarim colocando roupa, dando os laços, aperta dali, aperta daqui. Eu nunca assisti um desfile meu, eu só vi por fotografia ou filme depois, então, é muito cansativo, mas é uma realização imensa.

Por Mayariane Castro

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira