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Conheça a única produção de índigo japonês orgânico do Brasil, comandada pela estilista Kiri Miyazaki e o biólogo Antonio Neto

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Não é raro encontrar as mãos da designer de moda Kiri Miyazaki tingidas de azul. Aos 32 anos, ela cultiva, em Mairiporã, na Serra da Cantareira (SP), uma plantação de índigo japonês orgânico e transforma o que colhe em corante (a partir da folha seca) ou pigmento (com a folha fresca). De família japonesa, ela viveu em dois momentos no país oriental. Primeiro, dos 17 aos 20, quando foi morar com os pais e trabalhou na linha de produção de alimentos e eletrônicos. “Foi bem traumático. Não vivi aquele Japão tradicional, dos chás e tecidos”, lembra. Depois, aos 27, já formada em Moda pela Belas Artes, em São Paulo, se mandou para uma fazenda produtora de índigo na região de Tokushima. “Conheci todo o processo, da semente ao tingimento, e me apaixonei. Fiz as pazes com o país”, conta a estilista.

A estilista Kiri Miyazaki e o biólogo Antonio Neto na produção do índigo Foto: Divulgação

A primeira experiência oficial de Kiri com os tingimentos naturais foi um pouco antes, durante as aulas de superfície têxtil com a professora japonesa Mitiki Kodaira. “Já tingia panos desde muito jovem. Era a minha maneira de modernizar as roupas. Mas queria saber como colorir sem usar corante sintético. Perguntei à Mitiki como fazer isso e ela só respondeu um ‘tenta açafrão’ e saiu”, recorda. Na época, a tal da cúrcuma não era o hit de hoje e não foi fácil conseguir uma quantidade grande. “Adorei aquela potência de uma raiz, a vontade de preservar o meio ambiente veio junto, e me lancei nas pesquisas do assunto”. Em seguida, ela procurou a estilista Flávia Aranha, que a ensinou impressão botânica, tingimento liso e, por fim, o índigo. “Foi meu primeiro contato com o azul. O índigo fica em uma classe separada de outras plantas, como urucum, pau-brasil e açafrão. Ele é insolúvel em água, precisa fermentá-lo para torná-lo um corante solúvel. Fiquei encantada porque é muito diferente de tudo. Uma folha verde que vira um pigmento azul é incrível”, diz.

Das folhas verdes, um azul intenso Foto: Divulgação
Das folhas verdes, um azul intenso Foto: Divulgação

Da viagem ao Japão, ela trouxe sementes de persicaria tinctoria e, em sua casa na Vila Mariana, passou um semestre inteiro tentando germiná-las. “Foi a primeira vez que essa espécie entrou no Brasil. Ficamos meses para aclimatar”, conta. Até que o marido, o biólogo Antonio Neto, encontrou um substrato especial e, ufa, a sementinha brotou. A plantação foi crescendo e os dois entenderam que precisavam de um sítio. Há três anos, partiram para a Serra da Cantareira e começaram a plantar em uma área de mil metros quadrados. “Estamos vendendo as sementes para espalhar o índigo japonês por aqui. Já enviei até para a Bahia”, diz, destacando que o índigo orgânico ainda não chegou ao nível industrial. “Mas também não acredito que só isso seria a solução. Porque precisariam de hectares e mais hectares de plantação para suprir a demanda. No fim das contas, não seria tão diferente do que uma plantação de soja. O caminho é realmente diminuir o consumo”, alerta.

Todo mundo acha que Kiri vai lançar uma loja toda azul, mas ela nem pensa nisso. “Como fui fazer faculdade mais tarde, aos 24 anos, sabia tudo o que eu não queria. Enquanto minhas amigas sonhavam em desfilar no SPFW, eu desejava trabalhar com pesquisa, ser professora. Quero democratizar o índigo orgânico japonês, ensinar que há um outro caminho para tingir roupas sem gerar impacto no meio ambiente. A água azul do meu índigo pode ser usada até para regar plantas”, garante.

As aulas e vivências no sítio estão suspensas durante a pandemia. Mas os cursos on-line estão a todo vapor. Detalhes no site miyazakiindigo.com.