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Conheça a Normando, nova marca brasileira que incrementa cortes clássicos de alfaiataria – Vogue

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Ao lado do estilista Marco Normando, Carol Ribeiro usa blazer (R$ 2.676) e bermuda (R$ 1.724), ambos de crepe, e sapatos Louis Vuitton. (Foto: Gabriela Schmdt)

“O próprio brasileiro às vezes não tem ideia do quanto Belém é grande, o Pará é enorme”, diz Marco Normando, estilista de 29 anos que lançou no fim de agosto sua marca própria, batizada com seu sobrenome e com muitas referências às suas raízes amazônicas. Com fala mansa e paixão por suas origens, ele pode passar horas discutindo a fotografia, a literatura e a culinária da região, temas sempre presentes em seu processo de criação. Incrementar cortes clássicos de alfaiataria e peças de base minimalista coma ajuda de texturas e acabamentos especiais faz parte do que propõe a Normando, já disponível no e-commerce próprio (www.normando.co).

Enquanto blazers assimétricos fazem referência à cauda do pirarucu e tem fechamento com pérola de água doce, as pregas da calça culotes remetem ao volume de saiotes de palha indígenas, tops simulam vitórias-régias, e linhas sinuosas representam os rios amazônicos, uma inspiração onipresente na coleção.

A trajetória profissional de Marco começou em 2012 quando, recém-formado em moda na Unama (Universidade da Amazônia), participou do Movimento HotSpot, prêmio cultural que revelava talentos da indústria criativa. Lá conheceu Alexandre Herchcovitch, que o convidou a integrar sua equipe de estilo em São Paulo. “Imagina, eu morava em Belém e o Alê me chamou para trabalhar com ele. Não pensei duas vezes. Nem acreditei.”

Ao longo de três anos, ele aproveitou a experiência para afiar suas técnicas de alfaiataria e acabamento – rigor que hoje é facilmente identificado em seu trabalho, em que cada detalhe é minuciosamente pensado, como os botões de chifre de búfalo da Ilha de Marajó que levam o nome da marca em sua lateral, o algodão reciclado que compõe parte das peças, e a camiseta que tem 100% do lucro de venda revertido para comunidades ribeirinhas de ilhas em torno de Belém.

Vestido de seda (R$ 8.500) e sapatos Louis Vuitton (Foto: Gabriela Schmdt)

Vestido de seda (R$ 8.500) e sapatos Louis Vuitton (Foto: Gabriela Schmdt)

Quando se despediu do trabalho com Alexandre, ganhou uma bolsa de pesquisa e experimentação do governo do Pará e escolheu passar duas semanas imerso na Fordlândia, hoje um distrito fantasma, erguido no fim da década de 20 pelo americano Henry Ford às margens do rio Tapajós – o plano do fundador da Ford Motor Company era garantir sua própria fonte de borracha, necessária para a fabricação de pneus e peças automotivas. “A gente conhece muito pouco o Brasil. Poder ir para Santarém e desvendar essa cidade minúscula, que é cheia de história, foi algo muito importante para mim.”

Saiu de lá com planos de lançar na capital paulista a Normando e encontrou no sócio e colaborador criativo, o artista visual também de Belém Emídio Contente, o par necessário para alavancar suas ideias. Marco conta que todas as peças têm uma foto marcante por trás, e é Emídio quem “garimpa” os trabalhos de fotógrafos paranaenses como Octávio Cardoso, Paula Sampaio e Guy Veloso, que contribuem para esse diálogo.

O ateliê da marca, onde todos os processos são feitos, da modelagem à costura, fica em um prédio histórico de 1924, na Rua Libero Badaró, mesma que abrigou a garçonnière de Oswald de Andrade, local que fomentou muito da Semana de Arte Moderna de 1922. O modernismo brasileiro, com sua negação à escola europeia e busca pela exaltação nacional, é algo que também permeia muito o raciocínio do estilista. Mas, mesmo no Centro de São Paulo, ele alimenta sua conexão como Norte. “É meio antropofágico. Fico mergulhando em mim mesmo o tempo todo para conseguir produzir e estar no meio do caos da cidade”, diz.

Viagens recorrentes para visitar a família que ainda vive em Belém (ele nunca perde o Círio de Nazaré) também ajudam. O estado tem tradição na moda nacional: foi lá que nasceram os estilistas Denner, Lino Villaventura e André Lima e a modelo Carol Ribeiro, que veste as criações do conterrâneo nestas páginas. “A cultura da região é muito vasta, uma mistura indígena, africana, portuguesa e francesa. São sabores e ritmos únicos, sinto saudade de pegar um barquinho popopô para atravessar para a Ilha do Combú”, conta Carol.

Camisa de algodão (R$ 812) e calça de seda (R$ 4.084) (Foto: Gabriela Schmdt)

Camisa de algodão (R$ 812) e calça de seda (R$ 4.084) (Foto: Gabriela Schmdt)

Um projeto para mapear artesãos do Pará, que trabalham com materiais como o látex, o couro de búfalo do Marajó e a palha, seria o próximo desafio de Marco – mas precisou ser pausado devido à pandemia. Ele espera poder voltar logo para sua terra natal. “É engraçado, quando você sai, parece que você se torna meio turista. Você começa a ter uma perspectiva diferente, a se aprofundar muito mais na cultura.” Afinal, como bem já disse Saramago, às vezes é necessário sair da ilha para ver a ilha.

Styling: Sam Tavares
Beleza: Camila Anac com produtos Mac Cosmetics e Lee Stafford
Assistente de foto: Cassiano Lopes