Como empresas viabilizam desde doação de comida a projeto de arquitetura – 26/10/2020

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Empreendedores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais estão adotando um conceito de negócio em que comprar um produto ou pagar por um serviço pode impactar, de maneira direta, além da empresa que atendeu o consumidor. No modelo One for one, um para um, em português, a cada compra, uma doação é feita. O conceito, que envolve empreendedorismo social e fins lucrativos, começou em 2006, nos Estados Unidos, com o norte-americano Mycoskie Blake. Após uma viagem para a Argentina, onde conheceu crianças que não tinham sapatos e, por isso, não podiam ir à escola e estavam sujeitas a doenças, ele criou alpargatas inspiradas no tradicional calçado argentino. A cada sapato vendido, outro era doado para uma criança carente do país sul-americano. Nascia, então, a Toms Shoes.

A iniciativa se tornou global – está em mais de 10 países, inspirando empreendimentos mundo afora. Um deles é o da arquiteta paulistana Mona Feldman Singal, de 32 anos. Há três anos, quando iniciava o processo de branding do escritório de arquitetura que planejava abrir, ela viu a possibilidade de aplicar no o conceito da Toms no Brasil, porém na área dos serviços. A decisão vinha após dez anos trabalhando em diferentes escritórios de arquitetura de São Paulo. “Sempre tive a ideia de fazer algo com propósito porque eu já tinha contato com projetos sociais e comunidades de São Paulo desde a época do colégio. Então, pensava em como poderia fazer esse meu conhecimento técnico enquanto arquiteta beneficiar pessoas que estavam, muitas vezes, vivendo em condições insalubres”, comenta.

Mona atende os projetos técnicos com viés mais complexo

Imagem: Gui Gomes

Foram dois anos de pesquisas sobre o One for one até que o Rua 141, nome inspirado no próprio modelo de negócio, saísse do papel e colocasse em prática a proposta da fundadora: para cada projeto desenvolvido, uma ação social é realizada. Em um ano e meio de operação e com apenas duas pessoas atuando no escritório, já foram mais de 20 projetos de arquitetura desenvolvidos por Mona e realizados em regiões periféricas da capital, como na Vila Cachoeirinha e Vila Jacuí.

Para fazer o modelo funcionar, ela conta com apoio de instituições, como Vivenda e Moradigna, que atuam diretamente com comunidades onde existem problemas relacionados à habitação. Essas instituições, que já têm conhecimento na área da construção civil, repassam as demandas para o Rua 141 e fazem a intermediação junto aos moradores. Mona atende os projetos técnicos com viés mais complexo. “Antes, as instituições não tinham como passar a demanda adiante e deixam de dar continuidade a essas reformas”, observa a arquiteta, que conversa com os moradores para entender as necessidades deles e, assim, desenvolver o projeto. A compra de materiais e execução fica a cargo da instituição envolvida. Os recursos da construção, na maior parte dos casos, são financiados por empresas.

Cerca de 5% do valor dos projetos particulares desenvolvidos pelo Rua 141, como arquitetura e decoração de apartamentos e espaços comerciais de alto padrão, são direcionados para a ação social. “Converto isso para a quantidade de horas que posso me dedicar a esses projetos, que costumam ter um nível de detalhamento menor”, diz Mona. Segundo ela, boa parte dos clientes dela chega já sabendo desse viés social do escritório. “Para eles, é uma satisfação pessoal saber que estão contribuindo também, que há essa preocupação com a responsabilidade social”, assinala a arquiteta.

Reforma na Vila Cachoeirinha foi feita em parceria com a instituição Moradigna - Nathalie Artaxo - Nathalie Artaxo

Reforma na Vila Cachoeirinha foi feita em parceria com a instituição Moradigna

Imagem: Nathalie Artaxo

Impactando abrigos

Neste ano, além das reformas de casas em comunidades, Mona também começou a realizar projetos arquitetônicos para instituições que acolhem crianças. A primeira parceria foi estabelecida com a Decor Social, associação fundada por designers e que capta recursos e mobiliza parceiros para transformar abrigos em São Paulo. O projeto a ser executado é o do Lar Batista, no Campo Limpo. A entidade presta atendimento a 15 crianças e adolescentes em situação de risco.

Deteriorado, o local precisa de intervenções para reparar problemas como infiltrações, realocar ambientes e oferecer uma área de lazer para o público atendido. Mona fez o levantamento da planta e o projeto de reforma. A obra deve custar R$ 120 mil – a serem pagos por instituições financiadoras e doações de pessoas físicas – e ser executada em até 45 dias. A decoração dos ambientes – 12, no total – será feita por arquitetos parceiros. Os móveis serão doados por empresas patrocinadoras. “O objetivo principal da reforma vai ser entregar para essas crianças uma moradia saudável e segura”, destaca a designer e idealizadora da Decor Social, Kátia Perrone.

Ela pontua que viver em um local em boas condições impacta a autoestima dos abrigados e na forma como eles vão se relacionar com o espaço e outras pessoas. “Percebemos, em outras entregas de abrigos reformados, o quanto as crianças passam a cuidar mais do espaço, a se sentirem acolhidas. Elas já chegam vindo de um contexto mais pesado e encontram um lugar sem identidade alguma. Nos preocupamos que elas tenham ao mens um cantinho para chamar de seu, para se sentirem parte dali também”, explica.

Sócias Ciranda de Soli - Divulgação - Divulgação

Edlayne de Paula e Fabiana Schimitz, ambas de 37 anos, tocam o projeto Ciranda de Soli

Imagem: Divulgação

Bonecas de pano

Mesmo sem entender nada sobre tecido ou costura, as jornalistas Edlayne de Paula e Fabiana Schimitz, ambas de 37 anos, decidiram fundar juntas em Coronel Fabriciano, a 220 quilômetros de Belo Horizonte, a Ciranda de Soli. Trata-se de uma fábrica de bonecas, sem linha de produção, em que cada unidade vendida resulta em outra boneca doada.

Quando decidiram colocar o negócio em prática, Edlayne vinha de um período sabático e Fabiana havia se encantado com a história da Toms após ler o livro de Blake, o Comece algo que faça a diferença. “Estudamos o modelo por quatro meses, vendo preços, modelando com crianças e vendo se as contas batiam. Começamos com um protótipo e vendemos 50 bonecas em 20 dias”, conta Edlayne.

Todo o processo de costura é feito por seis costureiras, a maioria moradora da região periférica da cidade. Cada uma delas é responsável por uma parte do trabalho, recebendo por produção. As profissionais trabalham em suas próprias casas.

“A Soli tem 65 centímetros, é 100% de algodão, com enchimento em poliéster antialérgico, e embalagem de papel que também vira boneca. Quisemos trazer um resgate da boneca de pano como aquele brinquedo com que a criança pode dormir ou levar para qualquer lugar”, explica Edlayne.

Ao todo, são sete modelos da boneca. Segundo a sócia-fundadora, a escolha do nome Soli buscou brincar com as palavras solidariedade e sol, já que todas têm a “pele” amarela. “Quando doamos a boneca, iluminamos e aquecemos a vida de quem recebe. E sempre que falamos Soli, falamos sorrindo”, completa.

Desde o início das atividades, há 14 meses, 507 unidades foram vendidas, a R$ 149,90 cada. As doações acontecem por lotes, de 30 ou 50 bonecas, e priorizam instituições com crianças em situação de adoção, apesar de atenderem também creches, comunidades quilombolas e outras entidades assistenciais da região do Vale do Aço. Já foram feitas dez entregas, resultando no repasse de 272 bonecas. Outras 150 unidades estão com a entrega agendada.

Doação em creche, na cidade de Timóteo/MG - Teuller Morais - Teuller Morais

Doação em creche na cidade de Timóteo (MG)

Imagem: Teuller Morais

Edlayne analisa que os clientes da Ciranda, da região e de outros países, como Canadá, Alemanha e Estados Unidos, chegam por dois motivos – pela estética da boneca e pelo propósito embutido na compra. Isso porque todos que adquirem o brinquedo são convidados, posteriormente, para participar da entrega das bonecas doadas. “E as pessoas realmente vão. É como se fosse uma tarde ou manhã de brincadeiras, como se não houvesse diferenças sociais naquele lugar”, comenta.

Acolhimento

A entrega mais recente ocorreu no início do ano, na instituição Comunidade da Figueira, em Mariana. A entidade, que atende 66 pessoas com algum tipo de deficiência – física ou mental, com idade entre 11 anos e 82 anos, vive de doações, de alimentos a fraldas. Foram recebidas 50 bonecas. “Foi um momento de acolhimento lindo, com todos participando. A compra dessa boneca foi uma demonstração de muito carinho. Como nosso público são pessoas com deficiência, às vezes, eles não são aceitos”, pontua a coordenadora da instituição, Solange Ribeiro dos Santos Reis, 55 anos.

Conforme ela, as bonecas vão ganhar um local fixo na entidade, que deverá se chamar “Cantinho da Soli”. Uma boneca também será escolhida para “passear” pela casa dos assistidos. A ideia é trabalhar com o público questões como autoestima, aceitação e emoções. “Trabalhar o ‘eu não estou só’. Essa alegria, porque existem muitas dores e não podemos deixar a tristeza ficar. Eu posso ser alegre, eu posso conversar com essa boneca, abraçar, ter esses momentos que lembram aquele carinho de infância, mesmo sendo um rapaz ou senhor”, diz Solange.

Comida na mesa

Foi durante uma viagem pelo Ceará que o empreendedor Rony Meisler, de 38 anos, um dos fundadores da marca carioca de roupas masculinas Reserva, teve a ideia de desenvolver um projeto que viabilizasse alimentação para pessoas em situação de vulnerabilidade social a partir de suas vendas. Interessado em colocar em prática um projeto social que envolvesse educação, ele se deu conta, conversando com um jovem local, que não seria possível estudar ou trabalhar com fome.

Em maio de 2016, quando a marca completava dez anos da abertura da primeira loja, Meisler e os demais sócios adotaram um projeto no qual, a cada peça vendida, cinco pratos de refeições são viabilizados para instituições parceiras. Apesar de não abrir informações sobre os valores já doados, a empresa calcula que já foram entregues mais de 36 milhões de pratos de comida para 484 instituições participantes – uma média de 800 mil refeições por mês. A estimativa é que 300 mil pessoas sejam beneficiadas pela iniciativa.

“Nosso cliente faz a compra e gera um valor financeiro que é repassado a nossos parceiros, o Projeto Mesa Brasil e a ONG Banco de Alimentos. Eles coletam excedentes de alimentos nas cidades e os enviam para instituições cadastradas dos mais diversos tipos, como creches, escolas e casas-abrigo”, explica o coordenador do Projeto 1P5P dentro da Reserva, Alan Abreu. As instituições envolvidas que atendem as populações carentes estão distribuídas pelos estados de São Paulo e Alagoas.

No projeto 1P5P, excedente de alimentos é coletado por parceiros da Reserva e enviado a entidades que atendem comunidades carentes - Divulgação - Divulgação

No projeto 1P5P, excedente de alimentos é coletado por parceiros da Reserva e enviado a entidades que atendem comunidades carentes

Imagem: Divulgação

Os alimentos arrecadados pelo Projeto Mesa Brasil e a ONG Banco de Alimentos são produtos que perderam o valor de venda para os comerciantes, mas que ainda estão em condições de serem consumidos. Desta forma, os recursos repassados pela Reserva auxiliam os parceiros na operacionalização dos repasses de comida às entidades, no mesmo dia em que essa colheita urbana é feita em supermercados, hortifrútis e indústrias alimentícias.

“É uma contribuição essencial e que gera um benefício social e ambiental, por atender pessoas que não têm o que comer e por evitar a destinação desses resíduos em aterros”, observa o coordenador de Comunicação da ONG Banco de Alimentos, Gabriel Monteiro.

Segundo ele, os recursos oriundos do 1P5P auxiliam ainda em ações de educação nutricional, com oficinas voltadas ao aproveitamento total dos alimentos para equipes de cozinha das entidades, atividades educativas e lúdicas para melhor hábitos alimentares das comunidades, além de ações de conscientização por meio de redes sociais.

“Tem entidades que não têm recursos nem para comprar alimentos, então o projeto permite que desenvolvam seus trabalhos de uma forma melhor. Tivemos um caso em que só tinham arroz branco para comer e, com a nossa alimentação, tiveram acesso a nutrientes importantes e a uma nova forma de ver a educação alimentar”, enfatiza Monteiro.

A Reserva tem hoje 100 lojas próprias e 22 franquias nas principais capitais do Brasil. As marcas da empresa que fazem parte do 1P5P são Reserva, Reserva Mini e Reserva Go.