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Com tecido à base de celulose, Suzano entra no mercado têxtil – Revista Globo Rural

Tecido desenvolvido a partir de microfibra de celulose já está disponível em roupas de marcas escandinavas (Foto: Distribuição/Spinnova)

Produzir um tecido com menor uso de água em comparação com outras cadeias produtivas do setor têxtil é a nova aposta da Suzano. A empresa fechou uma parceria com a startup finlandesa Spinnova para fabricar fibras têxteis à base de celulose. Cada uma arcará com a metade de um investimento total de US$ 22 milhões – cerca de R$ 130 milhões – em uma joint venture sediada na Finlândia com planos de entrar no mercado em 2022. A prioridade agora é a construção da nova planta, na cidade de Jyväskylä.

Embora ainda não esteja disponível no Brasil, a fibra já é utilizada em agasalhos e artigos esportivos de marcas da própria Finlândia, da Dinamarca e da Noruega, afirma Janne Poranem, CEO da Spinnova. Em meados de fevereiro, a multinacional H&M, presente em 74 países, também passou a oferecer a opção. “O material é constituído por quase 100% de celulose”, sublinha o executivo, em entrevista à Globo Rural.

A parceria começou a ser discutida em 2017. As conversas eram feitas ainda com a Fíbria – empresa resultante da fusão entre a Aracruz e a VCP – comprada, em 2018, pela Suzano, que concluiu o negócio com os finlandeses. “Os executivos da empresa brasileira também procuravam novos meios de adicionar valor à polpa de madeira, que é o que colocamos em prática agora com a joint venture”, conta Poranem.

O diretor de novos negócios da Suzano, Vinicius Nonino, esclarece que a tecnologia ainda está em consolidação. Informa que a planta a ser construída em parceria com a Spinnova é comercial, mas também de desenvolvimento. “Nossa fibra passou por todos os parâmetros necessários e isso viabilizou o investimento”, avalia.

Ele admite que o preço deve ser mais alto que o de outros tecidos, mas acredita no conceito de sustentabilidade associado ao produto. “Nossa fibra carrega esse conceito de sustentabilidade muito forte. Existe um interesse muito grande de várias empresas, vários varejistas no mundo pelo nosso produto. Nós vamos comandar precificações superiores.”

Concorrência

O material é desenvolvido com fibras cortadas de celulose. (Foto: Distribuição/Spinnova)

O material é desenvolvido com fibras cortadas de celulose. (Foto: Distribuição/Spinnova)

A fibra da Spinnova não é a primeira à base de celulose a entrar no mercado. Roupas feitas de viscose já são familiares ao público. Janne Poranem reforça a aposta no conceito de sustentabilidade do seu produto em relação à concorrência. Ele afirma, inclusive, que foi a demanda por produtos mais sustentáveis que o levou a empreender no setor.

“Com nossa fibra, conseguimos fornecer inovação em uma área que precisa diminuir seu impacto e, ao mesmo tempo, entregar um maior volume de uma matéria-prima da qual a humanidade precisa”, argumenta. “O que aplicamos já foi testado e aprovado para uso em embalagens de papel dedicadas à indústria alimentícia”, detalha.

De acordo com os responsáveis pelo projeto, a inovação no material está na desconstrução mecânica da polpa de eucalipto em celulose microfibrilar – ou MFC. Matheus Guimarães, gerente de produto e desenvolvimento da Suzano e que vai comandar a planta na Finlândia pela empresa brasileira, ressalta que a viscose, por exemplo, requer um processo de dissolução química.

Além de fibras à base de celulose, a Spinnova mira outro concorrente: os tecidos de origem fóssil como poliéster e poliamidas, que ganharam espaço no mercado nos últimos anos. Os produtores destacam que o tecido à base de celulose usa matéria-prima de florestas plantadas de eucalipto. 

“Não só capturamos carbono, plantando árvores, mas também as usamos para fazer a substituição de produtos de origem fóssil. Conseguimos capturar mais na cadeia, do que a gente acaba emitindo”, pontua o diretor de novos negócios da Suzano, Vinicius Nonino.

A Suzano planeja fazer a remoção líquida de 40 milhões de toneladas de carbono da atmosfera e substituir plásticos e derivados do petróleo de sua cadeia produtiva, utilizando 10 milhões de toneladas de produtos de origem renovável.

Se, de um lado, a nova joint venture vê o conceito de sustentabilidade ao seu favor, de outro, ainda esbarra em um fator importante de competitividade: a escala. Segundo Nonino, o plano é aumentá-la para enfrentar a concorrência. O diretor conta que empresa brasileira produziu 12 milhões de toneladas de celulose em 2020 e parte desse montante deve ser dedicado à confecção de fibra têxtil à base de MFC.

“Uma parte fundamental da competitividade da fibra vem da escala e essa planta ainda é pequena”, avalia. “Desde que a gente seja competitivo, nós temos as condições de ser a solução do mercado tanto em custo, quanto em sustentabilidade”, diz. 

Florestas plantadas

Segundo a última edição da pesquisa Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) publicada em 2020, 3.523 municípios brasileiros registraram, em 2019, 10 milhões de hectares de áreas de florestas plantadas, sendo 7,6 milhões de hectares de eucaliptos. A Suzano afirma em seu site deter 1,3 milhão de hectares de árvores plantadas, sobretudo eucalipto e outros 900 mil de áreas conservadas.

De acordo com os executivos da empresa, o eucalipto foi escolhido como matéria-prima para essa nova fribra por ter baixo custo de produção e alto proveitamento de água na produção da biomassa. A fabricação da celulose microfibrilada deve ser feita no Brasil em função da competitividade do país na plantação de eucalipto.

O cientista florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), Silvio Ferraz, acompanha há anos o cultivo de florestas de eucalipto no âmbito do Programa Cooperativo sobre Monitoramento e Modelagem de Bacias Hidrográficas. Salienta que toda a cadeia produtiva agrícola ou florestal tem seus impactos. 

“No caso dos plantios comerciais de eucalipto e pinus, vem sendo reduzidos por conta de um processo de certificação socioambiental pioneiro no setor agrícola brasileiro que vem atuando desde a década de 90, sem o qual as empresas não conseguem colocar seus produtos no mercado”, diz ele.

Ferraz acredita ser difícil comparar vantagens e desvantagens do tecido à base de celulose de eucalipto com o de algodão, cuja cadeia produtiva também tem adotado iniciativas de promoção e certificação da sustentabilidade na produção. E quando se fala em menor uso de água, ressalta que é preciso saber os parâmetros usados na conta, já que há diferenças de volumes nos processos industriais e no campo, além de considerar a produção de efluentes. 

“No plantio florestal, o ciclo é muito mais longo (5 – 7 anos), utiliza menos defensivos e insumos, e ocasiona menos impactos na qualidade e regulação da água, biodiversidade, e ciclo de nutrientes que culturas agrícolas anuais. A preocupação maior é em relação ao uso da água pelos plantios, que em locais críticos ou sob sistema de manejo inadequados podem reduzir a água disponível à jusante. Neste caso é preciso ajustar o manejo florestal e temos investido bastante em pesquisa neste sentido”, detalha.

*Sob supervisão de Raphael Salomão, editor-assistente