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Coleo do L da Favelinha prope novo olhar para as sobras de tecidos e para a periferia – Feminino & Masculino

(foto: Marcio Rodrigues/Divulgao)

Se j existe tanto tecido no mundo, por que comprar mais? A marca Remexe, parte do projeto L da Favelinha, no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, surgiu a partir desta reflexo e refora a ideia de reaproveitamento na mais recente coleo, Revogue. Criadas com sobras txteis e roupas antigas, as peas do nova vida a materiais que, cedo ou tarde, iriam para o lixo. Para alm da moda, a coleo pede uma segunda chance para a periferia, que deve ser vista como um lugar de potencial artstico e cultural.

 

A Remexe j nasceu com o conceito de upcycling. Depois de vencer um desafio fashion do Sebrae, de criar roupas com resduos txteis, o artista Carlos Eduardo dos Anjos, o Kdu, que fundou o projeto L na Favelinha, teve a ideia de dar continuidade ao trabalho, montando um ateli de costura. Ele mesmo comprou trs mquinas, procurou na comunidade quem costurava e montou uma equipe. A iniciativa deu to cedo que logo o grupo se lanou como marca.

 

No ano passado, a Remexe lanou uma coleo com sobras de jeans, que se transformaram em roupas, mochilas e pochetes. Quando a pandemia chegou, a prxima coleo j estava em desenvolvimento, mas deixou de ser prioridade. As mulheres passaram a produzir jalecos para profissionais de sade e mscaras de tecido, antes mesmo da recomendao de uso para toda a populao.

As fotos de moradores usando os acessrios de proteo, com estampas coloridas, saram em jornais no Brasil, China, Inglaterra e Estados Unidos. “No incio, no sabamos como a populao ia aderir, ento fizemos 100 mil mscaras – 60 mil foram doadas para o morro. Como sobrou muito tecido, pensamos: por que no fazer uma coleo com estas sobras?”, relembra Kdu.

 

(foto: Marcio Rodrigues/Divulga
(foto: Marcio Rodrigues/Divulgao)

 

O nome Revogue refora a proposta do ateli. “O ‘re’ do Remexe tem a ver com reutilizar, refazer, recriar, da nasceu Revogue, de revogar, de voltar atrs e pedir mais uma chance para a roupa que seria descartada no lixo”, explica. As peas feitas com os tecidos das mscaras so grandes patchworks, o que resulta em uma divertida mistura de estampas, como de ursinho, caveira, flores e galinha. Entre elas, uma camisa, um short, uma cala e um casaco comprido.

 

A coleo no se limite s sobras das mscaras. Com muita ousadia, que sempre presente no trabalho, a marca lanou um vestido unindo gravatas e uma saia longa com tiras de jeans. Mas, desta vez, as costureiras no queriam fazer apenas peas de impacto, que acabam guardadas no armrio. Pensaram em roupas mais bsicas, para usar no dia a dia. Como exemplo, um body metade azul, metade vermelho e um conjunto de blusa e short com mistura de listras finas e largas.

 

Turismo nos becos

 

O editorial se prope a apresentar, alm das roupas, 10 pontos tursticos do Aglomerado da Serra. “Queremos vender uma experincia legal. para olhar a favela com um olhar diferente. No de pena, dor, tiro, porrada e bomba, mas um olhar com potencial criativo, arquitetnico e ldico”, defende Kdu, que assina a direo de arte das fotos e conhece os lugares e as pessoas como ningum.

 

Assim como as sobras de tecido, o artista diz que os becos pedem uma segunda chance. “Beco no s um lugar de aperto. Pode ser um cinema, uma galeria de arte, pode ser um ponto turstico.” Nas fotos, vemos o Beco Passarela, que ficou internacionalmente conhecido pelos desfiles de moda da Favelinha Fashion Week, e o Beco Bateria, palco de muitas atividades culturais, entre elas cinema. A escada j virou arquibancada e um lenol foi usado como tela para entreter o pblico.

 

(foto: Marcio Rodrigues/Divulga
(foto: Marcio Rodrigues/Divulgao)

 

O jovem sentado em uma cesta de basquete est na Praa do Cardoso, que funciona como ponto de encontro, lugar de eventos e quadra de esportes. J o Mirante do Campim o ponto mais alto da comunidade e tem uma bela vista da cidade, enquanto o Cano um cano enorme de ao que atravessa a Avenida Mem de S. “Este cano muito histrico. Era uma bica antes de existir gua encanada e os moradores iam l para lavar roupa. Virou ponto de referncia.” Kdu pensa em usar o cano como passarela para uma prxima edio da Favelinha Fashion Week.

Ainda fazem parte da lista de pontos tursticos do aglomerado a sede do Centro Cultural L da Favelinha, que recebe muitos turistas, desde a primeira-dama da cidade at moradores de outras comunidades interessados em entender como o projeto funciona. O ateli da Remexe tambm aparece nas fotos, assim como a Barbearia Milagre, frequentada por jogadores de futebol e artistas famosos . “Se quiser cortar o cabelo, tenho que agendar para semana que vem”, avisa Kdu.

 

A misso de Kdu mostrar o potencial artstico e cultural do Aglomerado da Serra, onde nasceu. Estima-se que l vivam 120 mil pessoas. Em 2015, ele alugou um espao para montar uma biblioteca e dar aulas de rap. Ali era o incio do Centro Cultural L da Favelinha, que hoje oferece para a comunidade 16 oficinas, incluindo ingls, bal, ioga e artesanato. O prdio de trs andares foi todo reformado com “vaquinha”, que arrecadou R$ 120 mil, e doao de matria-prima.

 

Relao com a moda

 

(foto: Marcio Rodrigues/Divulga
(foto: Marcio Rodrigues/Divulgao)

 

Kdu sempre foi ousado na forma de vestir, mas no entendia de fato o que era moda. At que, em 2017, vestiu artistas da comunidade com o acervo do bazar e fez um desfile no Beco Passarela, lanando a primeira edio da Favelinha Fashion Week. Logo depois veio a Remexe, que mudou a vida de muitas mulheres. “Uma largou a faxina para virar costureira, outra foi curada da depresso com a costura. Hoje elas falam que so designers de moda e estilistas”, conta.

 

A coleo do ano que vem j est sendo pensada. Kdu quer homenagear a arquitetura da favela. “Quero falar dos ‘gatos’, mostrar como os fios mudam a arquitetura, e do rejunte entre tijolo e cermica.” Outro projeto, j para janeiro, a inaugurao do Favelinha Shopping Center, no primeiro andar do centro cultural, onde, alm das roupas, a ideia vender livros, almofadas de croch, bolos e outros produtos feitos por moradores da comunidade.