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Coesão e coerência

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Ir ao centro da cidade com minha avó era um evento de infância dos mais especiais. Passeávamos por todas as alamedas do Calçadão, entrando e saindo de lojas que exalavam o frescor do motor das máquinas de costura as quais, massageadas pelos pés frenéticos das costureiras, arrematavam as peças para serem levadas às araras da confecção. Adorava bater perna “na cidade” com a vó, ganhar presentes e comer enrolado de presunto e queijo acompanhado de um copão de suco recém extraído da máquina giratória.

O que me cismava, porém, era a teimosia da matriarca de nos levar de ônibus – quando não, a pé. Hoje, admito, não era um caminho tão longo; mas a perspectiva das pernas curtas de uma criança faziam da travessia um martírio. A proposta tornava-se ainda mais escandalosa quando havia convite para carona de carro; dona Ilda, por sua vez, recusava. E eu, dando vistas de menina mimada, não entendia essa lógica.

Qual o problema de aceitar uma carona? Não fazia o menor sentido. Acontece que coerência representa um aspecto deveras subjetivo e nos demanda um compilado de informações que exige de nosso esforço interpretativo e experiência a fim de que uma ponta e outra da narrativa façam sentido.

E fazer sentido não basta. É importante, evidentemente, mas não o suficiente. A coesão, por exemplo, é um recurso que auxilia no processo de atribuir relações às partes de um discurso ou texto a fim de que tese, ideias e seleção de informações se convertam em uma argumentação plausível. Mas quando saímos do texto para a prática, os elementos coesivos disponíveis tornam-se inerentemente conectados ao nosso comportamento, pensamento, fala e ação.

“Tra il dire e il fare c’è di mezzo il mare” é um provérbio italiano que ilustra bem essa conexão. Significa: “entre dizer e fazer, existe o mar”. E, convenhamos, se até papagaio fala, que dirá um ser humano. Entretanto, o que nos difere de outros animais é ter uma rede neural disponível para que, mediante estímulo externo e esforço interno, desenvolvamos a habilidade de sermos coerentes entre o que dizemos e fazemos.

Olhando por esse lado, eu diria que aplicar técnicas e conceitos de coesão e coerência em uma redação é moleza. O desafio começa depois que entregamos a prova. É difícil passar a limpo o rascunho de nós mesmos todos os dias. E todos os dias – inevitavelmente – é preciso que haja reflexão sobre cada mínimo detalhe de nossa conduta.

Mas sejamos práticas: o que isso significa? Significa que proclamar-se cristão e defender Jair é incoerente. Significa que acusar Jair de segunda a quinta e aglomerar-se de sexta a domingo é incoerente. Significa que contar meio milhão de mortos por uma doença cuja vacina já existe é mais que incoerente, é um crime.

Esse tipo de incoerência não há coesão que conserte, nem retórica que a mascare, nem negação que a converta em fato; não há Cristo que abençoe nem Deus que perdoe.

Incoerente, eu? Ora, feche o jornal e olhe para além dos muros do seu condomínio, cara pálida. Volte para o Diário e folheie as páginas. LEIA. Dê uma volta pelos bairros periféricos, pergunte à doméstica como consegue por comida na mesa. Se existe alguma coerência entre o discurso dessa criatura que você chama de presidente e a realidade brasileira, ela se traduz em morte. E se esse papinho de “vai morrer quem tem de morrer, deus nos proteja, amém” faz sentido pra você, preciso te lembrar: fazer sentido não basta, é preciso coerência.

Quanto à minha avó, hoje tenho elementos suficientes para compreender sua ‘incoerência’. Mas eu seria no mínimo desonrosa à sua memória se tentasse resumi-la em um último parágrafo. Por outro lado, concordar que a vida de um ser humano é valiosa ao mesmo tempo em que se aceita o assassinato planejado e deliberado de milhares deles não faz sentido, não é coerente e não tem perdão. Que o seu deus, acima de tudo, seja impiedoso em seu juízo; e que a era de privilégio de uma família acima de todas chegue logo ao fim.

LETÍCIA FLORES, É professora de Língua Portuguesa, revisora e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras