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Capacitação salva mulheres da falta de trabalho na crise

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SÃO PAULO — Heide de Oliveira, de 34 anos, viu as diárias como doméstica diminuírem até minguarem de vez com a pandemia. Sem trabalho e com o desafio de chefiar uma casa com três filhos, foi com a construção civil que ela recuperou a renda e as esperanças.

E graças a um projeto de capacitação de mulheres na comunidade do Jardim Colombo, no complexo de Paraisópolis, em São Paulo.

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— Cheguei a ter alguma experiência em construção, mas a pandemia parou tudo. Fui trabalhar como diarista, mas com a piora da pandemia ninguém mais queria gente em casa. Fiquei parada. O curso foi uma grande oportunidade — conta.

Nas aulas do projeto “Fazendinhando”, Heide aprendeu técnicas para reformas e logo conseguiu uma vaga como ajudante de obras. Trabalha de um lado a outro da capital paulista.

É a única mulher da equipe. Mas não a única a ser beneficiada em uma onda de reação à redução de empregos com a crise da Covid.

Com o avanço da pandemia, avançaram também projetos que investem na qualificação profissional de mulheres em comunidades vulneráveis.

Heide aprendeu a colocar cerâmica, piso e hoje trabalha numa empresa da construção civil Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Heide aprendeu a colocar cerâmica, piso e hoje trabalha numa empresa da construção civil Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

  Primeiras a perderem seus empregos na crise e, apontam pesquisas, provavelmente as últimas a recuperarem as vagas, essas mulheres têm sido capacitadas para retornarem em postos de maior remuneração na tão aguardada retomada da economia.

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Muitas já estão recolocadas em vagas melhores. A capacitação virou “vacina” contra o desemprego na pandemia.

— Durante distribuições de cestas básicas e produtos de higiene e limpeza, fizemos um cadastro com os moradores. E nos assustamos com o número de mulheres de baixa escolaridade morando de aluguel sozinhas com os filhos. Não podíamos fechar os olhos — explica Ester Carro, presidente do Instituto Fazendinhando e arquiteta que escolheu a profissão para impactar o lugar onde nasceu e cresceu.

 — Damos capacitação de azulejistas, pintoras, eletricistas, e fazemos a conexão com o mercado. É importante que as mulheres vejam alternativas de empreendedorismo e não se limitem a trabalhos como de domésticas, babás ou em restaurantes, que eram maioria aqui e foram as mais prejudicadas na pandemia.

A pandemia vai tirar das mulheres dez anos de avanços no mercado de trabalho, já mostraram pesquisas. Elas não só foram as que mais deixaram postos de trabalho como as que também pararam de procurar emprego com a redução de oportunidades e a sobrecarga do cuidado com os filhos em casa.

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Mulheres de baixa renda e escolaridade foram as mais afetadas. E isso só aumentou a desigualdade no mercado de trabalho.

Em Heliópolis, mulheres assumiram renda

Por outro lado, os novos projetos têm mostrado que, se a pandemia atingiu mais as mulheres, pode também ampliar oportunidades para elas. Na comunidade de Heliópolis, na Zona Sul de São Paulo, mulheres que estavam desempregadas ou que já não trabalhavam antes da crise passaram a responder pela renda da casa quando os companheiros começaram a perder os empregos.

— Meu marido é taxista e só ele trabalhava. A pandemia nos pegou de surpresa. Ele ficou sem trabalho. Uma colega então me contou sobre um projeto daqui de confecção de máscaras. Como entendo um pouco de corte e costura, entrei. E ainda trouxe minha mãe e minha irmã, que também tinha ficado desempregada — conta Aldeíde Lustosa, de 51 anos.

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Ela estava há mais de dez anos “enferrujada”, assim como duas máquinas que tinha em casa. O projeto trouxe movimento de novo – para linhas, tesouras e para as mulheres da família, que depois da adesão ao projeto passaram a costurar para uma loja no Brás, um dos principais centros de comércio popular na capital paulista.

Aldeíde já sonha em ter a própria marca.

— Para as mulheres daqui foi duplamente positivo porque, além do dinheiro, elas estavam fazendo um bem comum, que era salvar vidas através das máscaras — diz a educadora popular Antonia Cleide Alves, presidente da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas).

No caso de Antônia Pereira, de 55 anos, as máscaras ainda ajudaram a própria saúde. Nascida em Surubim, Pernambuco, e moradora de Heliópolis desde os 15 anos, ela perdeu o sustento como costureira autônoma e diz que estava entrando em depressão.

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— O projeto chegou na hora mais difícil da minha vida. Tenho uma oficina de costura em casa, e o rapaz que fornecia as peças para o trabalho cortou os pedidos. Fiquei sem fazer nada, nervosa, deprimida. Uma amiga me contou sobre o projeto e comecei com as máscaras em casa — conta Antônia, que tem a ajuda do marido, aposentado, em algumas peças.

Segundo ela, foi um “dinheiro abençoado”.

— Comprei comida e ainda fiz algumas coisas em casa. Não tiro folga não, é de domingo a domingo. Saí uma costureira melhor.

Ela também recebeu orientações para se registrar como microempreendedora individual (MEI), o que abriu as portas para outros negócios de costura.

— No início fizemos um mapeamento das mulheres e elas não se viam como as que podiam manter o lar. Mas quando os maridos perderam os empregos elas começaram a perceber a importância do trabalho delas dentro de casa e pela primeira vez também se sentiram protagonistas na questão de trabalhar e levar dinheiro para casa —  conta Angela de São José Ferreira, coordenadora da Biblioteca Comunitária e de projetos de geração de renda em Heliópolis.

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E acrescenta:

— Com o projeto, ganharam renda e dignidade.

Algumas participantes foram chamadas a trabalhar em confecções de alta costura após a capacitação. Outras se empoderaram como microempreendedoras. Quem não sabia costurar aprendeu com as colegas, e quem já mexia nas máquinas aperfeiçoou técnicas.

Solidariedade e benefício econômico

Maria das Neves, de 65 anos, se reinventou como costureira e manteve a casa com confecção de máscaras e sacos de dormir para população em situação de rua na Ocupação 9 de julho, em São Paulo. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Maria das Neves, de 65 anos, se reinventou como costureira e manteve a casa com confecção de máscaras e sacos de dormir para população em situação de rua na Ocupação 9 de julho, em São Paulo. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Na Ocupação 9 de julho, no Centro de São Paulo, Maria das Neves, de 65 anos, passou das máscaras ao projeto Casulo pra rua, de costura de sacos de dormir para pessoas em situação de rua. Tudo feito em uma salinha pequena no térreo do prédio, com uma foto da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, colada no corredor em frente à máquina.

Das Neves, como é conhecida no prédio, se instalou ali nos projetos de capacitação surgidos na pandemia, quando os clientes desapareceram.

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— Fazia mais consertos de roupas que as pessoas pediam, mas muitas ficaram sem emprego. Quem tinha trabalho, estava com medo de gastar, porque não sabia o que ia acontecer. Esses projetos vieram para somar — conta.

A costura mantém a casa onde ela mora com dois bisnetos e uma neta que perdeu o emprego de caixa de loja.

— Nunca terminamos de aprender, até mesmo na profissão que já temos. Nunca tinha feito um casulo. Achava que só dava para fazer naquelas máquinas industriais grandes — conta. — Mas olha que deu certo?

A possibilidade de que algumas mulheres trabalhassem de suas próprias casas também tornou possível outro expediente frequentemente invisibilizado: o do cuidado com filhos, netos e bisnetos que pararam de estudar presencialmente, com as escolas fechadas.

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 Não que tenha sido fácil, mas os projetos trouxeram também humanidade em meio à crise econômica derivada da sanitária, diz Carmen Silva, coordenadora do Movimento Sem-Teto do Centro, nascido na Ocupação 9 de julho.

— Tudo isso mostrou que somos capazes de ser solidários. E que é possível abrir uma perspectiva maior de escuta. Muitas vezes, isso não acontecia no dia a dia da pandemia. Os projetos permitem conhecer as dificuldades e dão voz a essas mulheres — afirma Carmen, que é também professora do Núcleo de Mulheres e Território do Insper, em São Paulo.

Segurança alimentar, física e psicológica

No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, os projetos de capacitação voltados às mulheres viraram também espaços de segurança alimentar, psicológica e física na pandemia.

A Casa das Mulheres, ligada à instituição da sociedade civil Redes da Maré, não fechou as portas quando todos comércios e serviços pararam com a quarentena imposta pela Covid.

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Foi ali que as mulheres do projeto Maré de Sabores, criado há 11 anos e voltado à qualificação profissional de mulheres do complexo na gastronomia, teve de se reinventar com a suspensão dos eventos de catering e encomendas que sustentavam o negócio.

— Passamos a dedicar a experiência empreendedora da cozinha escola e da cozinha de produção do bufê para a população em situação de rua da Maré. E ainda participamos de outro projeto que garante refeições para pessoas que testam positivo para a Covid no território — conta Mariana Aleixo, coordenadora do Maré de Sabores.

Segundo ela,  esse movimento fez com que a Casa das Mulheres ficasse aberta durante todo o período da pandemia, e puderam ainda acompanhar as mulheres que estavam mais vulneráveis.

— Sabemos que elas foram mais impactadas pela insegurança alimentar.

No espaço, as mulheres também receberam atendimento psicológico e orientações, diz Mariana, sobre as diversas violências que sofreram e sofrem nesse momento de recomendação para que todos fiquem em casa.

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E as formações seguiram em um modelo híbrido com atividades presenciais por escala e o envio de vídeos explicativos por WhatsApp.

— Elas precisam estar qualificadas para o mercado e para ocupar cargos em que podem ser mais bem remuneradas quando a pandemia passar  — defende Mariana. — O acesso à educação, questões raciais e a condição de vida da mulher de favela também vão se colocar para o mercado nessa recuperação da economia. Quem vai ser contratada primeiro? Quem estiver mais preparada. Os impactos já existiam, e a pandemia só reforçou essa desigualdade.