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Belluzzo: as cloacas de onde Trump emergiu

Luiz Gonzaga Belluzzo, na CartaCapital

Em 4 de abril de 2017, Mary Trump, sobrinha do tio Donald, tomou um trem da Amtrak com destino a Washington, D.C, para um jantar em família na Casa Branca. Dez dias antes, ela recebera um e-mail convidando para uma celebração de aniversário das tias Maryanne, de 80 anos, e Elizabeth, de 75. Seu irmão mais novo, Donald, ocupava o Salão Oval desde janeiro.

Quando adentrou seu quarto no Trump
International Hotel, a sobrinha Mary encontrou o nome Trump estampado em
todos os lugares, em tudo: xampu Trump, condicionador Trump, chinelos
Trump, boné Trump, polimento de sapato Trump, kit
de costura Trump e roupão TRUMP. “Abri a geladeira, peguei uma garrafa
de vinho branco Trump, e derramei na minha garganta Trump, para que
pudesse passar pela minha corrente sanguínea Trump e atingir o centro de
prazer do meu cérebro Trump.”

Mary escreveu um livro devastador para narrar a trajetória do titio ególatra e tosco. Não por acaso, o livro recebeu o título Too Much and Never Enough: How My Family Created the World’s Most Dangerous Man. 

Em uma entrevista concedida a Bob Woodward na Casa Branca, o Homem Mais Perigoso do Mundo confessou: “Eu boto a raiva para fora. Eu boto a raiva para fora. Sempre gostei. Eu não sei se isso é um ativo ou um passivo, mas seja o que for, eu faço”. Trump exprime o declínio dos valores e das ideias que inspiraram os Estados Unidos na construção da chamada ordem mundial do pós-Guerra. Terminado o conflito, as forças vitoriosas, democráticas e antifascistas trataram de criar instituições destinadas a impedir a repetição da desordem destrutiva que nascera da rivalidade entre as potências e da economia destravada.

Nos idos de 2018, Martin Wolf, editor do Financial Times,
denunciou as manobras de Donald Trump para implodir a ordem mundial.
“São características destacadas do comportamento de Trump suas
invenções, sua autocomiseração e sua prática da intimidação: os outros,
inclusive os aliados históricos, estão “zombando de nós” em relação ao
clima ou “nos enganando” em relação ao comércio exterior. A União
Europeia, argumenta ele, “foi implantada para tirar proveito dos EUA,
certo? Não mais… Esse tempo acabou”.

O filósofo Fredric Jameson, no livro A Cultura do Dinheiro,
já advertia no início do milênio: “Os quatro pilares ideológicos,
jurídicos e morais do alto capitalismo – constituições, contratos,
cidadania e sociedade civil – são, hoje, vadios maltrapilhos, mas sempre
lavados, barbeados e vestidos com roupas novas para esconder sua
verdadeira situação de penúria”. 

O magnífico projeto
iluminista-burguês da liberdade, igualdade e fraternidade, avaliado em
seus próprios termos e objetivos, está fazendo água diante da alucinante
e alucinada competição entre as sociedades e suas lideranças para
mergulhar o planeta nos esgotos da barbárie.

Não podemos colher outro ensinamento do debate Trump-Biden escancarado nas telas planas das tevês e repercutido no terraplanismo das redes sociais.

A civilização ocidental, disse
Gandhi, teria sido uma boa ideia. Imaginei, santa ingenuidade, que as
batalhas do século XX, além do avanço dos direitos sociais e econômicos,
tivessem finalmente estendido os direitos civis e políticos, conquistas
das “democracias burguesas”, a todos os cidadãos. Mas talvez estejamos
numa empreitada verdadeiramente subversiva em seu paradoxo: a construção
da República dos Bárbaros. Uma novidade política engendrada nos porões
da inventividade contemporânea, regime em que as garantias republicanas
recuam diante dos esgares da máquina movida pelo narcisismo dos
ressentidos.  

Esses deserdados da civilidade simulam retidão moral para praticar as brutalidades dos homens de bem.
Os direitos individuais e os valores da modernidade são tragados no
redemoinho do moralismo particularista e exibicionista dos amorais.
Trump exibiu de forma contundente o papel do ultraje pessoal na
avacalhação do debate público. A ofensa pessoal desqualificadora usada
como argumento e a resposta no mesmo tom são instrumentos da
brutalização das consciências.

O expediente de satanizar o adversário revela indigência mental e despreparo para a convivência democrática. É, portanto, saudável exorcizar as tentações do maniqueísmo, o bem contra o mal. No debate, Trump, ao colocar os supremacistas brancos em alerta contra os movimentos antirracistas, desterrou o conflito social para fora da ordem jurídica. Nesse gesto convocou uma guerra civil, o aniquilamento do outro.

Os projéteis disparados no debate
ganharam impulso nos Facebooks, Twitters e Instagrams da vida. Os
impropérios lançados das plataformas da arrogância não atingiram apenas
os dois debatedores, mas maltrataram impiedosamente os princípios
elementares da convivência civilizada. Os tecladistas alcançam a proeza
de cometer cinco atentados contra os adversários numa frase de 12
palavras.

Os bárbaros do teclado, como Trump e
assemelhados, manejam com desembaraço a técnica das oposições binárias,
método dominante nas modernas ações e interações entre os participantes
das redes. Nos comentários da internet, vai “de vento em popa” o que
Herbert Marcuse chamou de “automatização psíquica” dos indivíduos. Os
processos conscientes são substituídos por reações imediatas,
simplificadoras e simplistas, quase sempre grosseiras, corpóreas.

Os indivíduos mutilados executam os processos descritos por Franz Neumann, em Behemoth, seu
livro clássico sobre o nazismo: “Aquilo contra o que os indivíduos nada
podem e que os nega é aquilo em que se convertem”. O que aparece sob a
forma farsista de um conflito entre o bem e o mal, está objetivado em
estruturas que enclausuram e deformam as subjetividades exaltadas. A
indignação individualista, a raiva contra os opositores e os arroubos
moralistas são expressões da impotência que, não raro, se metamorfoseia
em desvario autoritário.

Donald Trump e seu discípulo Jair
Messias são fiéis pastores de seus crentes. São fiéis a seus fiéis. Para
um contingente parrudo de americanos e brasileiros, não importam os
deslizes de seus Deuses e Messias. Importa, sim, que os Escolhidos
insistam e persistam na afirmação das crenças, ideologias, visões do
mundo, valores que refletem os ressentimentos dos súditos maltratados
pelas frustrações e misérias da vida.

Diante das misérias da vida e de uma
vida de misérias, as vítimas dos deuses mundanos buscam refúgio no
Incompreensível. Nos tempos de cólera, elas fogem das dúvidas e
angústias que as atormentam. Adaptadas, conformadas, até mesmo
confortadas e felizes, preferem aceitar que sua existência é apenas uma
permissão dos deuses e de seus procuradores na Terra. 

Nos espaços fabricados pelas Novas
Crenças não é possível manter conversações, porque neles a norma não é a
argumentação, mas o exercício da animosidade sob todos os seus
disfarces, a prática desbragada da agressividade a propósito de tudo e
de todos, presentes ou ausentes, amigos ou inimigos.

As redes sociais, prometidas como o
espaço do movimento livre das ideias e das opiniões, se transformaram
num calabouço policialesco em que a crítica é substituída pela
vigilância. A vigilância exige convicções esféricas, maciças,
impenetráveis, perfeitas. A vigilância deve adquirir aquela solidez
própria da turba enfurecida, disposta ao linchamento. Não se trata de
compreender o outro, mas de vigiá-lo. “Estranho ideal policialesco, o de
ser a má consciência de alguém”, diz o filósofo Gilles Deleuze, também
suspeito de patrocinar o marxismo cultural.

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