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Aos 85 anos, Alaíde Costa faz viagem luminosa pela obra de José Miguel Wisnik no álbum ‘O anel’ | Blog do Mauro Ferreira

Título: O anel – Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik

♪ Nascida em 8 de dezembro de 1935, Alaíde Costa faz hoje 85 anos em plena atividade, com um álbum de músicas inéditas no horizonte – previsto para 2021, com letras escritas por Emicida a partir de melodias de Joyce Moreno (parceria já pronta e intitulada Aurorear) e Francis Hime, entre outros compositores da MPB – e outro álbum, com regravações, já efetivamente posto no mercado fonográfico pelo Selo Sesc, por ora somente em edição digital.

Estrategicamente lançado nesta terça-feira, 8 de dezembro de 2020, dia do 85º aniversário da artista, O anel – Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik é, como explicita o subtítulo, songbook em que a cantora carioca dá voz a músicas do compositor paulista.

Produzido por Alê Siqueira, o álbum O anel marca o reencontro da intérprete com o compositor da música que Alaíde defendeu, em outubro de 1968, na etapa paulistana do I Festival Universitário de Música Popular Brasileira (TV Tupi).

Essa música, Outra viagem, demorou 31 anos para chegar ao disco, em gravação feita pela cantora Ná Ozzetti para o álbum Estopim (1999), mas até então nunca tinha sido registrada pela intérprete que a apresentou há 52 anos no festival da Tupi.

Banhada pelo lirismo, Outra viagem é uma das dez músicas que compõem o repertório do álbum O anel, projeto executado sob direção de Guto Ruocco. Três são inéditas, sendo que uma foi composta neste ano de 2020 e as outras duas são músicas antigas que ganham o primeiro registro fonográfico no álbum.

A real novidade do disco é a música-título O anel, interpretada por Wisnik com Alaíde em gravação que, no fim, une as duas vozes no canto da letra que cita a tradicional cantiga infantil.

José Miguel Wisnik e Alaíde Costa no estúdio de São Paulo em que o álbum ‘O anel’ foi gravado entre setembro e outubro — Foto: Reprodução / Facebook Alaíde Costa

Com edição em CD prevista para meados de 2021, o álbum O anel chega ao mundo precedido por single que apresentou uma das joias de maior quilate do repertório. Trata-se do samba-canção Saudade da saudade (José Miguel Wisnik e Paulo Neves, 1997), engrandecido por estupenda gravação que evocou o ambiente noturno de piano-bar carioca dos anos 1950, cenário em que se desenvolveu o embrião da Bossa Nova.

O álbum O anel está cravejado de joias que, na voz maturada de Alaíde, soam ainda mais valiosas. É o caso de Aparecida, música composta em 1996 e até então inédita em disco. Aparecida surge na abertura do álbum com melodia envolvente. Ao longo do disco, Alaíde Costa mostra entendimento da refinada sintaxe poética e melódica do cancioneiro de Wisnik.

Música apresentada pelo autor no álbum José Miguel Wisnik (1992), a balada Estranho jardim exemplifica a atmosfera íntima e esfumaçada do disco em gravação bafejada pelos sopros do flugelhorn de Jessé Sadoc. A letra cita Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), fundamental compositor da Bossa Nova, movimento em que Alaíde Costa também teve voz, ainda que a cantora seja a rigor mais talhada para interpretar temas de maior densidade.

Por isso mesmo, Alaíde chega a surpreender ao reviver Laser (1992) – parceria de Wisnik com Ricardo Breim, extraída do repertório do mesmo álbum José Miguel Wisnik de 1992 – em luminosa gravação feita com a devida leveza e com intervenção vocal do próprio Wisnik. O compositor é dono de canto mais opaco. Ainda assim, Laser mantém o brilho quando entra a (segunda) voz do autor, com providencial discrição.

Alaíde Costa dá grandes interpretações às músicas ‘Laser’, ‘Assum branco’, ‘Aparecida’ e ‘Saudade da saudade’ — Foto: Anita Abreu Solitrenick / Divulgação Selo Sesc

Gravado entre setembro e outubro deste ano de 2020, no estúdio paulistano Space Blues, curiosamente situado bem próximo do auditório em que Alaíde praticamente apresentou Wisnik ao Brasil no festival de 1968, O anel é disco formatado basicamente com arranjos de piano (tocado pelo Wisnik), baixo (o de Zeca Assumpção) e bateria (a de Sérgio Reze).

Contudo, entram sopros ao longo do álbum. Parceria de Guinga com Wisnik, apresentada pelo compositor paulista no álbum Indivisível (2011), Ilusão real tem sopros arranjados por Nailor Proveta, por exemplo.

Introduzida por citação de Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950) no toque límpido do piano de Wisnik, Assum branco (1998) atinge regiões sublimes no canto alado de Alaíde Costa em grande momento do álbum.

Emoldurada pelo toque do violoncelo de Jaques Morelenbaum, a gravação de Por um fio (José Miguel Wisnik e Paulo Neves, 2000) parece mostrar que o canto de Alaíde Costa tece fios invisíveis como um brilhante que, partindo a luz, explode em emoções concentradas, sem jamais cair na vala do melodrama barato.

Composição até então inédita em disco, Olhai os lírios do campo é canção feita por Wisnik em 1966 com versos de Flávio Rezende – e com evocações do espírito da obra compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685 – 1750), sublinhadas pelos vocalizes de Alaíde – para a trilha sonora de peça teatral do colégio em que estudava o artista.

Reapresentada no álbum com parte dos versos da letra original, Olhai os lírios do campo ressurge na voz de Wisnik em bonita gravação que costura o juvenil tema teatral com Onde está você (Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini, 1963), standard do repertório de Alaíde Costa.

O link expõe elo entre cantora e compositor – ligação explicitada nas dez músicas deste álbum produzido com esmero por Alê Siqueira sob a direção artística do próprio Wisnik.

Prosseguimento luminoso da viagem iniciada em 1968, o álbum O anel comprova que a obra de José Miguel Wisnik cabe bem na voz emblemática de Alaíde Costa, cantora que celebra hoje 85 anos com a edição de um dos melhores discos da longeva carreira.