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Alta Costura por Filipa Guimarães: ‘David Attenborough: A Consciência do Planeta’

‘David Attenborough: A Consciência do Planeta’

“O que tomamos como garantido pode não estar aqui para os nossos filhos.”
Al Gore

“As gerações adultas falharam-nos na maior crise que enfrenta a humanidade.”
Greta Thunberg

Assistir ao documentário de David Attenborough, “Uma Vida no Nosso Planeta” (Netflix), é tão ou mais emocionante do que ver um bom filme de ficção. Tem amor (neste caso, ao planeta), ação (pelo ar, terra e água), drama (a sua destruição e a luta para o salvar) e até um final de esperança. Este belíssimo trabalho do mais empático narrador da vida natural começa e acaba na Ucrânia, perto de Chernobyl. Não por acaso: foi onde aconteceu o mais nefasto acidente nuclear da História, em 1986, e onde, quase 40 anos depois, a natureza começa a ganhar território de forma nunca vista. Lançado em setembro, em plena pandemia, este filme torna-se ainda mais oportuno. Numa altura em que o mundo “parou”, os líderes mundiais são obrigados a pensar na forma como andamos a tratar o mundo. Por isso, é ainda mais engenhosa a forma como o mais famoso naturalista de sempre, nos consegue fazer sentir a beleza da Terra e também as suas dores, cada vez mais aceleradas pelo bicho Homem. Declarando ter tido “uma vida extraordinária”, David Attenbourough alerta-nos para os riscos do fim da biodiversidade e das alterações climáticas, com o saber de experiência feito. Aos 94 anos, poderia estar sossegado a um canto, delegando as suas preocupações à juventude. Mas não. Agora que todos já vimos a destruição da floresta tropical, o degelo dos glaciares, o aquecimento global, não fazermos nada é “inaceitável”, defende o icónico narrador. As imagens do documentário, comentadas com tanto conhecimento e amor pela natureza, fauna e flora, levam-nos a picos de deleite visual (como quando nos é mostrado o seu encontro com os gorilas) e também de tristeza. São devastadoras as imagens dos corais da Austrália mortos, o abate das baleias ou do orangotango a refugiar-se numa árvore semimorta, no Bornéu. “Os seres humanos apoderaram-se do mundo”, lamenta David Attenborough, em tom cabisbaixo. E sabemos que não é apenas para o efeito dramático do filme. Toda a sua narrativa, tão bem estruturada e demonstrada neste documentário, é coerente e preocupante. Se não houver vontade do ser humano para inverter a aniquilação da biodiversidade em nome de si próprio, o planeta Terra morre. E a humanidade também. Entre as muitas mensagens que nos ficam depois de ver “Uma Vida no Nosso Planeta” é que não falta muito para que isso aconteça, se continuarmos a produzir intensamente, a comer sem regras e a poluir sem consciência. O prognóstico do naturalista é assustador. De todas as espécies vivas (que sempre viveram “indiferentes à nossa existência”, sublinha), os seres humanos têm a maior das responsabilidades. “Não precisamos de ser só inteligentes, é preciso sabedoria”, alerta David Attenbourough. 

(Crónica publicada na revista Lux 1069 de 26 de outubro)