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Aeroporto ficou a ver navios, não aviões

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Inaugurado em dezembro de 2019, o Aeroporto Catarina, instalado em São Roque e pertencente ao grupo JHSF, acaba de ter sua internacionalização confirmada. Isso significa que o aeródromo poderá, a partir de agora, receber e ser ponto de partida de voos executivos internacionais, facilitando bastante a operação. A principal vantagem da internacionalização é a eliminação da necessidade de uma escala prévia em voos com origem ou destino fora do País. Sem ela, as aeronaves precisam passar por um terminal internacional para realizar os procedimentos de imigração e alfândega antes de se dirigirem a um aeroporto sem tal certificação.

Quem sai perdendo com isso, infelizmente, é Sorocaba e, consequentemente, os sorocabanos. A internacionalização seria essencial para o aeroporto da cidade, batizado de Bertram Luiz Leupolz. Isso porque ele é considerado um dos mais movimentados do mundo quando se trata de manutenção de aeronaves executivas. Ainda sem tal certificação, os aviões não podem vir diretamente do exterior para Sorocaba, restringindo a atuação no mercado. A internacionalização significa investimentos e um potencial de geração de empregos.

O gosto é ainda mais amargo pela clara constatação de que a obtenção da nova classificação do Catarina, feita entre Poder Público e administradores do empreendimento, foi muito mais rápida e eficiente do que as tentativas de Sorocaba. Para se ter uma ideia, o pedido de internacionalização do Aeroporto Bertram Luiz Leupolz foi iniciado em 2012, mas até o mês passado sequer tramitava na Agência Nacional de Aviação (Anac). Vale lembrar que a promessa do Estado, em 2020, era de que as melhorias no Aeroporto de Sorocaba, necessárias para a subida de classe, deveriam ser concluídas em dezembro último, o que não ocorreu. A divisão de propriedades — municipais, estaduais e privadas — do local também segue pendente. Até recentemente, o acesso ao local ainda era praticamente livre.

Para constar, a designação é expedida pela Anac, com a autorização da Polícia Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) e Receita Federal. Contudo, o primordial para que ela aconteça é a costura política em todas as esferas — municipal, estadual e federal. É necessário empenho público e privado. Apesar de garantias e muita esperança de que haveria melhorias e a obtenção da certificação, nada disso aconteceu. O aeroporto de Sorocaba ficou a ver navios — e não aviões.

Dessa forma, o aeroporto e a cidade perdem grande chance de darem um passo à frente em um mercado relevante e bastante promissor que é a aviação executiva. A internacionalização do Catarina não significa que o Aeroporto de Sorocaba não consiga a mesma classificação. Porém, o pulo do gato do Catarina pode impactar no segmento. Não há dúvida de que haverá disputa de mercado. Tanto que muitos hangares que operam em Sorocaba já estão sendo assediados a se mudarem para o Catarina. Portanto, tudo indica que Sorocaba ficou para trás nessa corrida dos aeroportos. Pelo menos até o momento. Que as pessoas, empresas e órgãos públicos envolvidos se mobilizem para mudar esse cenário. Esse processo traria crescimento para a cidade.

Antes mesmo da confirmação da nova condição do Catarina, o assunto já preocupava o economista Geraldo de Almeida. Foi ele quem deu o pontapé inicial para a internacionalização, quando foi secretário de Desenvolvimento Econômico em Sorocaba. “Sempre preocupa. Quem chega primeiro bebe água limpa. Sorocaba vai ficando para trás. É triste”, disse em recente entrevista. Pelo visto, os jogadores que o sucederam não conseguiram fazer o gol.