Pular para o conteúdo

A trágica noite de tempestade na montanha*

  • por

Naquela tarde em que a nevasca prenunciava-se extemporânea e intensa, encontrava-se a família numa apreensão geral

 

Fora um ano atípico na história do pequeno vilarejo incrustado entre as montanhas do Tirol austríaco. As nevascas tiveram seu início já nos meados de setembro, antes mesmo que o outono tivesse seu início. Os aldeões que sempre estavam preparados para quando começassem as temperaturas gélidas foram pegos de surpresa. A incógnita permanecia no ar. Havia muito ainda para ser colhido. Muito feno a ser enrolado em fardos e levado aos estábulos e celeiros para servir de alimento ao gado nos terríveis meses em que nem porta afora de seus lares conseguiriam sair.

 

 

 

Na casa dos Tendrich a apreensão era intensa. Maria, a filha mais velha, que se casara não fazia um ano estava nos últimos dias de uma gestação que não decorrera muito bem até então. Junto com Willy, seu marido, ficaram morando na casa dos pais dela.

 

 

 

A casa era muito espaçosa. Inúmeros quartos que desde remotas eras antepassados foram agregando. Uma cozinha imensa, com enorme fogão em seu centro. Fogo permanente até nos dias de verão. Uma sala que poderia até ser chamada de salão, de tão espaçosa. Na parede oposta aos grandes janelões, uma lareira sempre carregada de achas de lenha para jamais deixar que as chamas se apagassem.

 

 

 

Um bosque imenso de pinheiros e tílias ao redor de toda a escarpa fornecia o necessário material para que nunca padecessem de frio nos rigorosos invernos que castigavam as encostas do monte onde viviam.

 

 

 

Dos troncos de pinheiros escolhidos foi construída não apenas a casa mas, também, estábulos, cocheiras, ranchos. Colocados na horizontal, agregados uns aos outros com resinas e uma mistura de cal com argila, para que não restassem frestas por onde os gélidos ventos poderiam penetrar. O edifício principal tinha ainda pedras em sua construção. Pedras extraídas da própria montanha.

 

 

 

A casa era composta de dois pavimentos. O superior era a parte da habitação. Onde se localizavam os quartos, as salas, a cozinha. Um sótão, a um lance de escada era o local dos guardados. E das brincadeiras e esconderijos das crianças. O inferior, justaposto à montanha era o grande paiol, o local de se guardar a carroça e a charrete e reservado para abrigar a criação nos meses de frio. Os animais ficavam resguardados das intempéries e ajudavam a aquecer o piso superior.

 

 

O velho Gustav, já arcado pelos anos, com seus cabelos mais brancos que a neve e uma barba que chegava até o peito, era levado pelos bisnetos, em um carrinho de um canto para o outro da grande esplanada que era o varandão que cercava o piso superior. Varandão, todo envidraçado, de onde se podia descortinar o vale, ao longe. Já não enxergava, mas sabia exatamente onde corria o regato de onde trazia gordas trutas para a família jantar, em seus tempos de juventude. Sabia exatamente quantos passos deviam ser percorridos para se chegar às suas margens. E em quantos minutos lá chegaria deslizando com seus esquis nos tempos da estação fria. Mais longe ainda o lago com o céu, agora plúmbeo, a refletir-se em suas águas.

 

 

 

Naquela tarde em que a nevasca prenunciava-se extemporânea e intensa, encontrava-se a família numa apreensão geral. Os garotos mais jovens, adolescentes impetuosos, haviam saído na véspera, mal raiara o dia, com suas mochilas e cordas, seus grampos e picaretas, rumo ao mais alto pico, distante mais de um quilômetro, em linha reta, de onde moravam. Pretendiam escalá-lo e acampar em seu pico, a mais de dois mil metros acima do nível do mar. Despedida do verão, disseram a sorrir, no adeus que deram aos seus. Já deveriam estar de volta. Os dias ainda não eram curtos. Mas o sol já estava quase a se pôr. E nem vislumbre dos garotos na distância.

 

 

 

O velho Gustav pedia aos pequenos que não tirassem os olhos do horizonte. Clamava alto para o filho e para os netos que encilhassem as montarias. Que as atrelassem ao carro enquanto ainda era tempo e fossem ao encontro dos dois malucos aventureiros.

 

 

 

 

Enquanto isto Maria começou a sentir as contrações uterinas. Espaçadas, ainda, mas contrações. Vendo aquele terror dominando a família, nem ousou comentar que poderia ser hora de seu bebê vir ao mundo. Em sua ingenuidade imaginava que tudo aconteceria normalmente e que nem precisaria de ajuda. Que sua mãe, mesmo, poderia segurar a criança na hora em que chegasse ao mundo.

 

 

 

Como, naquela angústia toda, pedir que alguém fosse até a casa de Frau Astrid, a velha parteira que tantos rebentos já ajudara a trazer ao mundo, para alegria de ditosos pais?

 

 

 

 

Recolheu-se ao seu quarto, numa tentativa de não ser percebida. Willy estava envolto em conduzir para o compartimento seguro do primeiro piso os animais que pastavam nos campos adjacentes.

 

 

 

O vento rugia atônito, vergando pinheiros, quase fazendo com que suas copas beijassem o solo. Estalidos de galhos a romper-se eram ouvidos na distância. Já não eram assobios do vendaval que precedia a anunciada nevasca. Era um furor indescritível.

 

 

 

Franz correu até onde estavam os cavalos e começou a encilhá-los a fim de prendê-los à carroça e ir em busca dos filhos. Foi difícil abrir o grande portão e sair para fora lutando contra a fúria do vento. Alguns flocos de neve já começavam a cair sobre os cavalos que voavam montanha acima, como que sentindo dentro deles o desespero do dono. À medida que subia a montanha, estreitava-se o caminho e a tempestade aumentava sua fúria.

 

 

 

 

Mais sentiu do que viu, em uma reentrância, em meio ao monte, — uma reentrância que era usada como abrigo em tempos de chuva —, algo como uma sombra avermelhada. Lembrou-se de haver insistido com os meninos para que sempre usassem roupas com cores berrantes quando fossem escalar a montanha. Ansioso e no desespero, freia, rapidamente, fazendo com que os cavalos quase se desviassem do caminho. Levava consigo badalos e o indispensável corne para se fazer ouvir na distância. Levou–o à boca e o seu som ecoou pelas encostas e pelo vale. Logo ouviu a resposta dos instrumentos de sopro dos meninos.

 

 

 

Conseguiu levar o carro até perto de onde eles se encontravam. Um pedaço do sufoco passara. O problema agora era retornar para casa, na maior velocidade possível, antes que a noite chegasse. Nada conversaram. O barulho ensurdecedor do vento não deixaria mesmo que fossem ouvidos.

 

 

 

Conseguiram chegar a tempo, antes que a tempestade de neve e a noite os engolisse. Frau Ingrid, já preparara para eles uma roupa seca e quentinha para que ficassem bem agasalhados e não corressem o risco de pegar uma doença pulmonar.

 

 

 

 

A janta já estava preparada e a mesa foi servida. Uma fumegante sopeira cheia de caldo e generosos pedaços de carne de galinha e o indispensável Cless exalava seu aroma pela cozinha inteira. Todos acomodados em torno da grande mesa, esperando que o pai fizesse a prece de agradecimento pela comida servida e pelo desenlace feliz dos garotos alpinistas que ali se encontravam.

 

 

 

 

Mas… havia um lugar vago na mesa. Alguém estava faltando. Maria! Onde estaria Maria, que ainda não tinha vindo dar as boas-vindas e abraçar os quase perdidos montanheses?  Frau Ingrid soltou um grito e saiu, em desabalada carreira, à procura da filha. Foi na salinha de costuras, na sala onde faziam outros serviços manuais e nada dela.

 

 

 

Pensou que em seu quarto ela não poderia estar. Maria não fora criada para ficar em repouso enquanto outros corriam a fazer os serviços da casa, enquanto todos aflitos e angustiados estavam à espera dos garotos. Foi até o quarto do jovem casal. Bateu na porta. Silêncio. De novo. Chamou. Ninguém atendia e nem respondia. Forçou a fechadura. Que se abriu com facilidade. Não estava trancada. E então ela viu o desespero à sua frente. O grito que soltou invadiu a casa. Mais que um grito. Era um uivo de fera ensandecida.

 

 

 

Maria estendida no assoalho em meio a um mar vermelho de sangue. Em seu seio um quase inerte bebê, preso ainda, pelo cordão umbilical, ao ventre materno.

 

 

 

Não havia tempo para dar vasão ao desespero. Com um horror nascente, que ela tentava conter, correu para a sala de costura de onde retorna com uma tesoura e um branco cordão que na mesa encontrara. Amarrou, com todo o cuidado o grosso cordão, cortando-o em seguida. O bebê não estava gelado. Ainda! Maria, em sua agonia, sentindo que a vida se esvaía junto com o sangue que, aos borbotões fluía de dentro dela, envolveu o recém nato com uma manta e o acolheu em seus braços. Não estava gélido, mas respirava mal. Sua cor azulada já denunciava o pior. Frau Ingrid, a correr, em desespero, levou-o para perto da grande lareira acesa no salão.

 

 

 

Willy não quis ver o filho. Amaldiçoou-o por ter causado a morte de sua Maria. Enlouquecido, encilhou o primeiro cavalo que encontrou no estábulo e em desabalada carreira saiu, desvairadamente, a cavalgar na escuridão da noite, em meio à tempestade de neve. E à família que o acolhera nunca mais voltou. Tragado pelas águas do lago lá embaixo? Uma queda em algum dos muitos precipícios que ladeiam os montes?

 

 

 

 

O pequeno Anton renasceu. E no seio da grande família foi criado. De onde saiu, já adolescente, para estudar violino em Viena.

 

 

 

*Trecho de um futuro romance em fase de construção.