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À procura de coisas imprecisas – Ensaio Palavra-Imagem com Marcelo Amorim e Nino Cais – Entretempos

Para esta edição do Ensaio Palavra-Imagem, decidi convidar os artistas Nino Cais e Marcelo Amorim. Os dois – que se conhecem desde 2005 – carregam uma linda amizade e inúmeros projetos de fomento criativo na história. Desde 2009, juntos com a também artista Carla Chaim, criaram o “Hermes”  – palco de tantos devaneios artísticos – e mantém o “Fonte”, ateliê que recebe residentes do Brasil e do mundo, desde 2013. Eles estão sempre juntos. Percorrer o circuito Vila Madalena/Pinheiros – quando isso era mais frequente – era como marcar um encontro com os dois, que certamente estariam por ali, explorando os arredores. Cada um deles, com seu olhar crítico e bonito, se complementa. Eles estão juntos nesse ensaio, que traz a arte, mas também um quentinho no coração. Amorim com suas palavras nostálgicas e precisas e Cais com suas obras emblemáticas de cadeiras. O mundo, principalmente agora, precisa mais e mais de amizades e parcerias como essa.

Nino querido,

Lembrei que a gente se conheceu em um ônibus! Você estava sentado no fundo e usava óculos escuros. Quando o ônibus parou descobrimos que nós dois estávamos a caminho de um mesmo destino, um museu. Nós também estávamos a caminho do trabalho. O seu trabalho naquele momento era ficar sentado algumas horas por dia no espaço expositivo costurando uma camisa que tinha inúmeras tiras pensadas para amarrar e carregar objetos com você. O meu trabalho naquele momento era nos bastidores, diagramando livros, textos, convites.

Eu também estive nos bastidores da maioria dos seus projetos desde então, seja fotografando, escrevendo, editando, dialogando com você. Nós estabelecemos essa cumplicidade em que um constantemente observa o trabalho do outro. Como é difícil ver a si mesmo! É da planície que se observa melhor a montanha, afinal quem escala a montanha deve apenas concentrar-se para não despencar das alturas. Nas nossas excursões aos sebos, antiquários, mercados de pulgas, nunca sabíamos ao certo o que estávamos procurando. Ali ficava claro como nosso olhar havia se tornado sensível ao trabalho do outro, sempre encontrando com mais facilidade os tesouros alinhados à pesquisa do outro. E é desse ponto de vista cúmplice que tenho te observado há anos.

Sua relação com os objetos naquele espaço expositivo me deixava curioso e ainda me instiga. Você sentava atrás de uma máquina de costura e, ao fundo, ferramentas muito brutas e objetos do reino doméstico estavam dispostos na parede. Também me recordo dos seus primeiros desenhos que eram praticamente abstratos, você os chamava de nós. Os mesmos nós que você dava com as tiras da camisa ao redor dos objetos.

Você descrevia os nós como um lugar de silêncio e eram demarcados no papel com manchas de bastão oleoso. Os desenhos sempre foram de alguma maneira projetos, ideias para possíveis ou impossíveis instalações. As marcas, que eram de um bastão vermelho, pareciam indicar pontos inflamados, sensações. Mas eram também indícios de outras materialidades ainda imprecisas que somavam às estruturas enxutas dos objetos.

Os objetos que te circundavam passavam a fazer parte dos desenhos e das instalações e assim o repertório, que era de louças e vidros da casa da sua mãe, virou objetos de plástico, encontrados no comércio popular do Largo da Batata após sua mudança de endereço. Andávamos a pé rapidamente, num passo apertado, sempre carregando muitas sacolas. Íamos nas lojas de móveis usados, nos sebos, sempre em busca de alguma coisa imprecisa. Às vezes comprávamos coisas que se revelavam inúteis para o seu processo e você as doava para outras pessoas rapidamente sem pensar muito em quanto custaram ou que outra serventia poderiam ter.

Sempre lembro de uma cena de um filme chamado “Correndo com tesouras”. O filho chega na casa da mãe e fala que vai fazer um chá. Abrindo os armários da cozinha, encontra-os vazios. Ele pergunta pra mãe sobre a louça e ela diz que colocou a louça disposta no chão do quintal para receber o luar. Ele não tem dúvida e chama a ambulância internando a mãe em um hospício. Eu acho que já cheguei na sua casa e vi cenas parecidas, inúmeros objetos de diversas procedências em composições sem aparente função ou sentido. Eram sempre um mistério pra mim mas também representavam a libertação da casa e seus padrões de condicionamento. A mulher do filme não queria apenas lavar e guardar a louça, ela queria poesia. Eu também acho justo querer mais da casa, quero poder usá-la de outra forma, em outros horários, talvez derrubar algumas paredes…

Mas eis que enfim os objetos povoaram o papel se organizando em composições pouco comuns. Pilhas de objetos. Bules, xícaras, enxadas, martelos, bancos e cadeiras de madeira. Só depois seu corpo também entrou nas composições como um objeto a mais.

Quando perguntaram a você em que momento aconteceu a virada para a entrada do seu próprio corpo no trabalho, a resposta veio das cadeiras. A cadeira chamava o corpo. Era sempre o desenho de uma cadeira antiga, austera, de madeira, quase a ideia da cadeira.

Quando vejo essa série de desenhos mais recentes não consigo desligar de toda essa história que presenciei. A novidade que percebo nesses desenhos vem a ser o design das cadeiras. Não se trata mais daquela cadeira vinda de uma memória interpessoal. Aquela que é a memória do corpo, que era a pura necessidade de acomodar o corpo. Soma-se mais essa camada do design, um projeto utópico de modernidade que pretendia levar arte para todos através da escala industrial, mas que falhou, se diluiu, se perverteu na criação de objetos de consumo e distinção social.

Algumas delas parecem vir de um catálogo ou de uma revista de decoração. Elas trazem também um sinal que não é apenas um valor de uso mas também um valor simbólico. Os desenhos poderiam ser mais uma observação a respeito do lugar da arte: mesmo cheio de intenções e desejos mais profundos, vem a ser sempre tão próximo do lugar da decoração, do design de interiores. Uma arte docilizada, disposta e arranjada meticulosamente em um cenário pensado para persuadir, instrumentalizada para ser esse sinal de distinção em imóveis de alto padrão. Você fez uma exposição que abordava esse assunto e se chamava Decor, lembra? O espaço era forrado por papéis de parede e em alguns momentos o mesmo papel de parede também aparecia emoldurado.

Eu olho para essas cadeiras e encontro novamente ali as manchas contaminando o projeto. O que são essas manchas? Parecem vir da observação de um campo invisível e seus nós, seus lugares de silêncio, seus pontos inflamados. Lembro também das cadeiras de Joseph Beuys que preenchidas com gordura não convidavam mais ao repouso. Seu trabalho sempre opera nesse lugar que tira as coisas corriqueiras dos seus lugares e nos conduz para uma outra dimensão de significados, aspirando à poesia e nos tirando também dos nossos próprios condicionamentos.

Querido Nino! O tempo passou: aquele museu mudou de lugar, não tomamos nunca mais aquele ônibus mas seguimos aqui dividindo nossos ateliês, dando aulas, promovendo residências e exposições. Nestes dias estranhos que vivemos, encontramos forças na amizade para manter não apenas nossas pesquisas em andamento, mas também um espaço independente aberto. Aberto às trocas com outros artistas, somando e dividindo nossos conhecimentos, acreditando que é só através da cumplicidade que o caminho se faz. E assim continuamos caminhando apressados pelo bairro, carregando sacolas, rindo e reclamando da vida, sempre atentos à procura de coisas imprecisas.