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A presença das mulheres no artesanato brasileiro – Casa Vogue

“Depois de cinco horas dirigindo em uma estrada sinuosa, estacionei o carro no terreno baldio na frente do Salão Paroquial. Descemos, as designers que trabalhavam comigo na época e eu, com um frio na barriga e uma leve dor nas costas. Tanto a igreja como o prédio ao lado tinham as paredes pintadas em um rosa chiclete, com adornos em um azul calcinha. Todas as quartas-feiras, durante nove meses, saíamos de Porto Alegre às 4:15h da manhã rumo a Serra Gaúcha. Toda vez que chegávamos em um município novo era como se eu estivesse chegando na escola, no primeiro dia de aula da 3ª série.

Entramos no prédio rosa como quem entra em um novo universo, não havia ninguém para nos receber por detrás das grandes portas de madeira escura, muito menos para dizer em qual das salas estavam os que nos esperavam. Dava para escutar um burburinho ao fundo o que acabou nos guiando para nosso destino, uma sala com a porta aberta no final de um corredor de piso vermelho. Eu sempre dou uma respirada profunda antes de entrar, sempre. Me ajuda a libertar um pouco as borboletas no meu estômago, a pegar fôlego, como se fosse a entrada em um palco onde eu sou a técnica de luz, a responsável por fazer o outro brilhar.

Artesãs e artesão do grupo da minha cidade, Veranópolis/RS, as designers Luísa Santos e Élin Godois e eu – Projeto de Capacitação do Artesanato da Serra Nordeste, 2014 (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

Na sala estavam 18 mulheres numa excitação juvenil, as sacolas cheias de produtos, peças espalhadas pelas mesas, “que ponto é esse”, “qual linha tu usou aqui”, “onde eu compro esse tecido”. Enquanto elas quase em uníssono estabelecem uma troca contínua, seu Paulo permanece quieto no canto da sala, com suas peças de madeira em cima da mesa, me esperando chegar.”

A presença das mulheres no artesanato brasileiro (Foto: Marcelo Donadussi)

Artesã tricotando em Canoas, RS – Projeto Natal da Transformação, 2012 (Foto: Marcelo Donadussi)

Começo mais um texto da minha coluna “Cultura feita à mão” com esse relato para falar sobre a presença e importância das mulheres no artesanato brasileiro. Em 13 anos de trabalho de campo, posso dizer que apenas uma vez foi diferente. Em todas as outras, aconteceu praticamente a repetição da cena acima. As mulheres eram maioria. E o que eu quero dizer com isso?

Primeiro que, historicamente, a mulher era quem ficava em casa enquanto o homem saía para caçar e lutar. Em casa, as mais velhas ensinavam os chamados trabalhos manuais (cestaria, tapeçaria, bordado, costura, crochê, tricô, entre outras técnicas artesanais) para as mais novas. Daí vem a importância da ancestralidade para a cultura. As mulheres são o vetor.

Segundo que, no cenário atual, as mulheres representam 77% do número total de artesãos no Brasil. Elas ocupam papel de destaque em muitas associações e cooperativas e, muitas vezes, são as que tem maior receita na casa, sendo mantenedoras de suas famílias.

A presença das mulheres no artesanato brasileiro (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

Artesãs de Alecrim, Vale do Jequitinhonha, MG – Projeto Circuito Vale Unisol, 2016 (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

Mesmo tendo esta representatividade, foram os homens que receberam destaque na produção artesanal brasileira por muito tempo. Quantas Mestras Artesãs reconhecidas como tal você conhece? E quantos Mestres Artesãos? Pergunte a um tio, seu avô, se conseguir fale com sua bisavó. As mulheres não eram consideradas “mestres” principalmente porque trabalhavam reclusas em casa, sob as ordens dos seus maridos. Diferente dos homens, poucas podiam ter seus ateliês, receber clientes, trabalhar.

Por serem consideradas “tarefas domésticas”, os trabalhos manuais femininos não eram levados a sério. O protagonismo era masculino e mesmo assim as mulheres foram responsáveis por propagar técnicas manuais, mantendo-as vivas até os dias de hoje. Pode ser que o cesto que você tem em casa só exista porque alguma mulher ensinou a técnica para suas descendentes que seguem produzindo a partir desse aprendizado, mantendo essa conhecimento vivo. 

A presença das mulheres no artesanato brasileiro (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

As mãos de Haydée Pezzini, artesã que tricotou até os 100 anos com sua primeira agulha, e um prego que pegou da oficina de seu pai escondido, pois a familia não a deixava aprender tricô (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

De uns tempos pra cá as artesãs vêm ocupando seu lugar de direito na cultura do país. O protagonismo e o reconhecimento vão chegando aos poucos, fruto de muitas mãos femininas. São elas que plantam as sementes, que espalham seu conhecimento, que levam nossos traços culturais pela linha do tempo. Elas carregam em si a história do nosso povo.

*Nicole Tomazi aprendeu bordado, crochê e tricô com sua avó, quando era criança. O forte vínculo com o território, a cultura local, a ancestralidade e o feminino são a base do seu trabalho e da sua pesquisa pessoal. No ano de 2007 decidiu atuar junto a grupos de artesãos unindo design e artesanato em suas produções, tornando-se uma voz atuante na área. Seus produtos autorais já foram expostos na Semana de Design de Milão em 2009, 2010, 2012, 2013 e 2015, sendo finalista do Salone Satellite por duas vezes, apresentando ao mundo o artesanato brasileiro em suas criações. Ganhadora de prêmios como Casa Vogue Design e Planeta Casa, destaca-se por unir teoria e prática, pesquisando incansavelmente maneiras de valorizar a cultura do trabalho manual do país. Formada em Arquitetura e Urbanismo é Mestra em Design com ênfase em Artesanato, Território e Patrimônio e atualmente forma a dupla Nicole Tomazi + Sergio Cabral.