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A moda volta às passarelas de Paris

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Paris – O Festival de Cinema de Cannes se prepara para receber as estrelas no tapete vermelho; os bilionários estão de volta ao Vale do Sol; e em Paris – “É como uma reunião de escola, sabe?”, disse a editora de moda francesa Carine Roitfeld, tirando o cabelo dos olhos pintados de preto e olhando em volta, no desfile da Dior, no início da primeira semana de moda presencial em mais de um ano.




© Distributed by The New York Times Licensing Group
Modelo no desfile da Chanel durante a Semana da Moda de Paris, em 6 de julho de 2021. (Valerio Mezzanotti/The New York Times)

Como sempre, muitos estavam sentados em uma caixa especialmente construída nos jardins do Musée Rodin, dessa vez adornada com uma faixa bordada apresentando uma paisagem imaginária criada pela artista francesa Eva Jospin e produzida pela Escola de Artesanato Chanakya, na Índia, ao longo de três meses. Os participantes, que não se viam desde o início de 2020, beijaram-se e se abraçaram de alegria. Roitfeld parecia contente, para não dizer totalmente satisfeita, com a coisa toda.

É verdade que havia algo um tanto desconcertante em relação ao retorno precipitado: os paparazzi clamando por uma foto de Jessica Chastain e Jennifer Lawrence; os jantares veganos com vários pratos regados a champanhe para comemorar todas as noites; os sapatos de salto ressoando nos degraus do Palais Galliera.

Assim, embora o público não estivesse mais tão aglomerado a ponto de ficar roçando a perna do vizinho na plateia e a máscara ainda fosse obrigatória nas tendas, os olhares pareciam voltados para o passado: um retorno ao classicismo holográfico de um terninho Armani Privé; o explosivo tule de um vestido de festa Giambattista Valli; o intrincado mosaico de peles da Fendi (embora somente peles vintage tenham sido usadas dessa vez). O que não quer dizer que não houve grandes – e mesmo pequenos – saltos para a frente.



Modelos nos bastidores do desfile da Armani Privé durante a Semana da Moda de Paris, em 6 de julho de 2021. (Valerio Mezzanotti/The New York Times)


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Modelos nos bastidores do desfile da Armani Privé durante a Semana da Moda de Paris, em 6 de julho de 2021. (Valerio Mezzanotti/The New York Times)

Uma estreia triunfante

Cinquenta e três anos depois que Cristóbal Balenciaga fechou as portas de seu salão de alta-costura, Demna Gvasalia o reabriu, recriando cada sala com a maior precisão possível e continuando do ponto em que o homem que é considerado o maior estilista de todos os tempos havia parado. Sentado em uma cadeira de salão de baile, onde um único cravo carmesim tinha sido colocado precisamente na diagonal de cada assento, era difícil não pensar: as paredes provavelmente estão ficando loucas.

Porque essa não foi uma estranha viagem no espaço-tempo, através de algum buraco de minhoca, até meados do século XX. Foi uma aula magistral sobre como aprender com o passado a fim de chegar com mais eficácia a meados do século XXI. Como questionar tudo que você imaginava saber, e reavaliar.

Em vez da primeira fila de antigamente – Mona von Bismarck, Bunny Mellon, Babe Paley, Gloria Guinness –, a deste ano estava ocupada por Kanye West (que chegou com a cabeça coberta), Lewis Hamilton, James Harden e Lil Baby. Em vez de apenas mulheres esguias na passarela, havia modelos de todas as idades, formas e tipos de beleza. (Havia até uma modelo ligeiramente famosa: Ella Emhoff, a enteada da vice-presidente Kamala Harris.)

As expectativas foram subvertidas – não apenas em relação a quem tem acesso à alta-costura ou a quem está incluído, mas também em relação ao que constitui uma roupa de alta-costura; os totens do cotidiano e da rua se transformaram em objetos de elite.

Gvasalia brincou com o vestido solto, é claro, mas fez um casaco solto: preso na cintura, com uma gola ombro a ombro pendurada na clavícula para emoldurar o pescoço, cravada nas omoplatas como se tivesse parado antes de cair. As peças são de gabardine laranja fluorescente e pele falsa prateada e desgrenhada, mas também incluem um jeans que foi tratado como uma fibra preciosa, proveniente de máquinas originais do Japão com as ferragens folheadas a prata.

O estilista fez uma camiseta de cetim preto com ombreiras e mangas pregueadas, com a gola ligeiramente alta, combinada com jeans soltos e uma linda estola de ópera que chega até o chão.

“Sofri três meses por causa daquela camiseta. É muito mais fácil fazer um vestido de baile”, comentou depois do desfile. Para ser justo, porém, ele também fez alguns vestidos (em sua maioria inspirados pelos arquivos da marca) em chiffon enrolado em volta do corpo ou com bordados que, de alguma forma, pareciam degradados pelo tempo. Transformou parkas, anoraques e roupões de banho em capas de ópera em vermelho rubi, rosa-choque e crisoprásio.

Tudo tinha a pureza monástica, o rigor da forma e a ausência de frufrus desnecessários que originalmente definiram Balenciaga, alimentado pelo impulso iconoclasta que marca o trabalho de Gvasalia. O resultado rompeu o torpor e o descontentamento do ano passado e pôs fim a todas aquelas questões chorosas sobre a atual relevância da moda. A coleção faz você querer se vestir e sair para fazer alguma coisa.

É óbvio que nem todos podem sair, ao menos não com essas roupas (na verdade, pouquíssimas pessoas podem), mas atualmente Gvasalia é tão copiado pelas marcas do mercado de massa que a qualquer momento haverá alguma versão chegando a uma loja perto de você.

Um salto para fazer história

Por falar em planos de ação, o tema de Iris van Herpen foi a Terra vista de cima, para oferecer uma perspectiva de nosso lugar nela depois do isolamento do ano passado. Para fazer isso, ela se juntou à paraquedista francesa Domitille Kiger, que girou pelo ar usando um vestido extraordinário da coleção de van Herpen que parecia existir entre a Terra e o céu. (Uma curiosidade: Van Herpen também é paraquedista.)

Segundo a estilista, essa foi – tanto quanto ela ou Kiger saibam – a primeira vez que alguém saltou usando um vestido de qualquer tipo, e ela acabou tendo de confeccioná-lo com milhares de pequenas esferas para suportar a pressão de alguém caindo a cerca de 300 quilômetros por hora. Na verdade, Kiger deu o primeiro salto usando tricoline – o tecido usado para fazer a amostra – e, segundo van Herpen, “o vestido tinha praticamente se desintegrado” quando Kiger chegou ao chão.

Essa é uma solução típica do trabalho da estilista, que parece existir em algum reino além da moda: um lugar em que um vestido pode se tornar uma expressão mutante dos processos da vida; alguma criatura híbrida de tecnologia, arte, imaginação e… reciclagem. (Muitos vestidos da coleção, todos igualmente móveis e atraentes, foram feitos de fibras de plástico reciclado do oceano.) Alguém precisa ligar para a redação do “Guinness World Records”.

Momentos dignos dos memes

Viktor & Rolf, mestres da alta-costura de duplo sentido, construíram o desfile inteiro como uma reflexão não apenas sobre os brocados e enfeites adornados com joias, mas também sobre o verdadeiro significado da realeza (tópico meio polêmico atualmente). Sem mencionar os vários usos da palavra “rainha”, presente em diversas faixas cerimoniais, com expressões em inglês como “A Royal Pain in the Ass” (Um pé no saco real) e “Size Queen” (Tamanho queen).

Na Schiaparelli, Daniel Roseberry brincou de “encontrar a parte do corpo”, moldando cotovelos, abdomes, narizes, seios e até mesmo a fenda das nádegas em resina 3D dourada, e incorporando essas peças a uma jaqueta jeans incrível (feita a partir de 11 pares de jeans antigos), a vestidos pretos glamorosos e até a alguns acessórios. Um par de saltos altos deu um novo significado a “sapatos de dedo”.

E o arquiteto nonagenário Frank Gehry apareceu para ser festejado em um jantar da Louis Vuitton que celebrava seu primeiro frasco de perfume, que tem uma tampa que parece um pedaço de papel-alumínio amassado ou o resquício de uma nave espacial de Bezos ou Musk.

Um desfecho de história de terror

Para aqueles que não conseguiam se desligar totalmente das telas, John Galliano se livrou da tradição das passarelas na Maison Margiela e apresentou um curta-metragem de terror gótico do cineasta francês Olivier Dahan inspirado nas histórias e personagens que Galliano inventa para conjurar suas coleções.

Havia uma vila de pescadores do século XIX, um navio fantasma, uma favela no mar. Havia uma coroa de cacos de espelho que invocava uma pestilência sobrenatural. Havia uma espécie de videira fantasma, regurgitada da boca de um jovem amante. Cem anos se passaram. Havia outra comunidade, com uma vidente. Havia danças em camisas e roupas íntimas, máscaras de animais e rituais. Havia uma terceira era, com uma jovem moderna que vestia a coroa e se tornava uma rainha amaldiçoada. Havia também alguns efeitos estroboscópicos e uma lua de sangue.

Algumas imagens eram lindas, outras eram bobas. Muitas eram difíceis de acompanhar, mas também havia roupas incríveis, quando dava para vê-las.

c. 2021 The New York Times Company