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a coleção de Mary, baiana de acarajé

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Oque é que a baiana tem? A baiana tem muita cor, um grande sorriso, olhos que brilham, orgulho de seu trabalho e da mulher que se tornou, tendo como exemplo sua mãe, dona Eulina Urbana de Jesus, 71 anos. Há 43 anos frequenta a Praça da Sé para trabalhar com a venda de acarajés, abarás e bolinhos de estudante. “Desde os 7 anos venho para cá”, relembra.

De uma família de 11 irmãos e tradicional de baianas de acarajé, de avó e mãe, Dulce Mary de Jesus, 50 anos, ou simplesmente Mary, não fugiu da tradição. A pequena que ficava na saia da mãe agora é dona de sua própria saia e segura de si, com fala forte e firme.

Levanta cedo e chega para trabalhar às 9h, só vai embora depois que o sol se põe. Em seu tabuleiro, na Praça da Sé, as panelas brilham e os panos de prato parecem que foram passados hora.

Um grande banner ao fundo para proteger do sol e chuva mostram os famosos que passaram por ali e saborearam o gostoso acarajé que não vem envolto somente no papel e recheado de salada e camarão, vem repleto de histórias de mulheres e costumes.

Com a chegada da pandemia em março de 2020, todos tivemos que mudar nossas rotinas de casa e do trabalho. Mary também teve que mudar tudo. Diminuir horários de trabalho, dias sem trabalhar (lockdown), semanas sem risadas com soteropolitanos, sem turistas e fotos. A tristeza tentou tomar conta do coração dessa baiana guerreira, mas não conseguiu.

Um domingo em casa, sozinha, preocupada com as contas e não podendo trabalhar, lembrou de suas caixas com bonecas Barbies e Kens e resolveu remexer as bonecas que há dois anos estavam paradas. Lavou roupinhas, arrumou cabelos e entrou em um grupo de colecionadores de Barbie no Facebook. Deu vida novamente para suas bonecas, coloriu ainda mais seu mundo. Retomou sua coleção adquirindo mais bonecas. “Sempre ganho bonecas usadas e faço a transformação, arrumando cabelo, faço unha, piercing, tatuagem e maquiagem. Alguns me chamam de maluca, não ligo”.

Há mais de um ano suas bonecas a ajudam a lidar com a crise do trabalho imposta pela pandemia e dão força para seguir diariamente. “Não me sinto só, são minha válvula de escape”.

Atualmente, possui 100 bonecas, entre loiras, morenas, cadeirante, com prótese, asiáticas e negras (17 ao total). “As bonecas negras são duas vezes mais caras”, comenta Mary, que está no Instagram: @ Barbie_mary06. São mais de 300 roupas, sapatos, bolsas, móveis, roupas de festa, lingerie, vestido de noiva, lingerie para noite de núpcias e, acreditem, carro e moto.

Faz bem

Quando chega do trabalho, vai para a casa da mãe. Dona Eulina também tem coleção de bonecas bebês. Costura roupas para as suas e as de Mary. “Minha mãe gosta de me ver mexendo com o biscuit e as Barbies, diz que faz bem para a cabeça”, conta. Lá começa a fazer cenários e comidinhas com massinha de Biscuit, faz festas e encontros entre as bonecas. “Às vezes, vou ver a hora e são quase duas da manhã, não vejo a hora passar”. Entre cenários e fotos, vai brincando: “Sou transportada para outro lugar”.

A festa mais recente que arrumou foi para o Dia dos Namorados, com bolo com corações e drinques; também está montando um salão de beleza, e o próximo cardápio das bonecas será pizza.

Em 1996, aos 24 anos, Mary tomou coragem e comprou sua primeira Barbie. Sempre teve o sonho de ter uma, após uma de suas irmãs mais novas ganhar uma, mas a responsabilidade em casa não deixava ter uma boneca cara. Após inúmeras “paqueradas” – e dinheiro guardado –, comprou sua primeira Barbie, a coleção praia; semanas depois comprou mais uma, e assim seguiu sua coleção entre aquisições e presentes.

Para a próxima conquista quer a Barbie com cílios, que custa a bagatela de R$ 500. Essa baiana de coração forte tem alma de menina. Vê na simplicidade de uma boneca a riqueza de um mundo de imaginação. Seu coração fica em paz.