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A arte de tricotar e vender que fez o sucesso de uma Maria de Lourdes na moda – 02/09/2020 – Rede Social

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Nascida e criada fora do circuito fashion, Maria de Lourdes Anselmi, 62, construiu uma trajetória de sucesso no mercado da moda nacional.

Enquanto grifes e estilistas badalados fecham portas e reestruturam seus negócios, a fundadora da Malharia Anselmi abria sua primeira loja em São Paulo no shopping JK Iguatemi, um dos mais exclusivos e luxuosos do país.

O lance ousado em junho de 2019 chamou a atenção para o grupo têxtil de Farroupilha, na Serra Gaúcha, polo coureiro-calçadista do Rio Grande do Sul.

No município de 72 mil habitantes, Maria de Lourdes construiu do zero um grupo empresarial milionário.

“Nasci com esse dom e fui construindo meu negócio com os valores passados pelos meus pais, de trabalhar, fazer o correto e ajudar os outros”, afirma a dona de um negócio que produz 50 mil peças de tricô por mês em uma moderna tecelagem espalhada por 14.000 m2.

Conquistas inimagináveis para a dona de casa que começou a costurar num quartinho da casa para ajudar o marido caminhoneiro a complementar a renda.

“A gente era muito pobre. Com 12 anos parei de estudar para cuidar dos meus cinco irmãos na colônia”, relata a neta de imigrantes italianos do Vêneto e da Lombardia que só aprendeu português quando foi para a escola aos 7 anos.

Até então falava o dialeto dos avós, em um rincão de 24 hectares que a família ganhou ao chegar ao país em 1878. “Além do serviço doméstico, eu tirava leite, fazia queijo”, conta ela.

E fazia arte. Sem dinheiro para comprar linha, a menina engenhosa desmanchava peças do enxoval da mãe e sacos de sal e açúcar para usar linhas e fios para tecer roupas.

Virou moça prendada, com curso de corte e costura. Casou-se aos 16 e a três dias do 17o aniversário se tornaria mãe.

Três anos depois, e após um século exato da chegada dos antepassados, Maria de Lourdes deixava a colônia rumo à cidade.

Começa ali a trajetória de empreendedora. Com dois filhos pequenos e sem ter como trabalhar fora de casa, Maria de Lourdes bateu às portas das malharias de Farroupilha para pedir serviço.

Costurando e bordando por encomenda, ela conseguiu economizar o equivalente a R$ 1 mil, capital inicial do futuro negócio.

Investiu o montante em tecido para fazer a primeira leva de 20 camisas. “Peguei uma sacolinha e fui para o centro vender, mas não vendi nenhuma.”

Até encontrar por acaso uma senhora que era revendedora em Porto Alegre. Viu ali a oportunidade de colocar o produto no mercado e pagou o táxi para levar a compradora até sua casa distante do centro.

Realizou a primeira venda. Sem telefone residencial, o segundo pedido veio por carta depois de uma semana.

“Nunca imaginei que o negócio fosse tomar essa proporção ”, diz Maria de Lourdes.

O primeiro ganho de escala veio com o uso de maquinário de uma vizinha, a quem pedia para preparar o fio para que pudesse confeccionar 900 peças por mês.

A parte mais difícil era transportar a matéria-prima comprada na vizinha Caxias do Sul. Andava uns 5 km com 15 kg de fios nos braços. “Com o dinheiro que economizava no táxi eu comprava um quilo de linha e produzia mais peças a cada viagem.”

Contabiliza também hematomas na cintura após carregar a carga sozinha. Sacrifícios recompensados com progresso, a ponto de o marido decidir vender o caminhão e investir no negócio da mulher.

A família já havia se mudado para uma casa melhor, onde a pequena fábrica foi instalada no porão. Uma cartolina com o sobrenome Anselmi escrito a mão por Sandra, a primogênita, deu nome à malharia registrada em 1982.

Maria de Lourdes também voltou a estudar, fazendo supletivo à noite. Aos 45 anos, entrou na faculdade em um curso de gestão empresarial.

O horizonte se expandia na mesma toada. Em uma reunião do comitê de estilo do sindicato da fiação, abriu-se a oportunidade de viajar ao exterior.

“Queria entender mais de moda. Há 30 anos, o mundo se abria para mim, quando passei a ir para feiras na Alemanha, na Itália, em Nova York”.

Levava junto a filha mais velha, a administradora Sandra, 45, que virou estilista e diretora de criação da marca há 28 anos. “Minha mãe tem uma cabeça muito aberta, quer sempre aprender e passou isso para os filhos.”

Da mesma forma, o filho do meio, Eduardo, 42, tornou-se o diretor administrativo e industrial do grupo, incentivado pela mãe, já divorciada, a ir para fora em busca das tecnologias avançadas em tecelagem.

“Fui fazer o primeiro curso com um fabricante em Milão e descobri que não sabia falar o italiano gramatical”, relata ele, sobre a língua aprendida com as avós.

Fez visitas técnicas também ao Japão e na Alemanha, trazendo na bagagem novidades para a fábrica.

“Na volta, eu treinada as equipes, programava as máquinas e dava suporte”, explica o herdeiro que não conseguiu fazer engenharia têxtil, mas se tornou especialista na produção em 3D, sem cortes.

A paixão pelo tricô une a família, incluindo a caçula Patrícia Anselmi, 28, diretora de marketing do grupo.

Seguem o exemplo materno e dizem não haver conflito de geração. “Nossa mãe é muito jovem e nós também começamos cedo. Conhecemos bem a indústria e somos apaixonados pelo que fazemos”, diz Sandra, sobre o sucesso da gestão familiar.

“Fiquei impressionada com a solidez do negócio e a qualidade na produção de uma roupa atemporal, o que não é tradição no Brasil”, afirma a jornalista Lilian Pacce, referência setor, ao descobri a Anselmi, quando a marca de 40 anos chegou a São Paulo.

O caso de Maria de Lourdes Anselmi, segundo ela, é exemplar, de como a moda garante liberdade financeira às mulheres. “É a salvação de muitas famílias”, diz a fundadora do movimento #eu apoioamodanacional, para dar suporte ao setor altamente impactado pela crise do novo coronavírus.

À frente de uma das tecelagens mais modernas do país, Maria de Lourdes e filhos passaram pelo duro teste da pandemia.

A quarentena forçou o fechamento da fábrica de meados de março a abril, período em que a Anselmi desligou 38 funcionários temporários e deu férias coletivas para os outros 400.

“O que essas pessoas vão fazer?”, angustiava-se Maria de Lourdes, diante das dispensas. O filho a acalmou: “Nada nos impede de pegá-los de volta, quando a fábrica reabrir.”

E assim foi feito. Recontrataram todos. “E ainda tivemos que puxar horas extras para dar conta da demanda. Zeramos nosso estoque e até faltaram produtos”, afirma Eduardo, sobre recordes de vendas no atacado e no varejo online durante a pandemia.

“Nossa previsão de crescimento é de 8% neste ano. Já passamos de 3% no primeiro semestre, recuperamos o prejuízo dos meses parados e devemos bater a meta.”

Segundo Eduardo, dois fatores explicam o aquecimento do mercado interno no setor: o dólar alto e o fato de os consumidores brasileiros não terem viajado para o exterior nesse período de fronteiras fechadas.

Perspectivas que levaram à decisão de investir R$ 10 milhões na expansão do parque fabril da Anselmi para uma nova planta nos arredores de Farroupilha.

A matriarca deu o tom na crise da Covid-19. “Garantimos desde o início que a empresa não ia medir esforços para segurar todo mundo”, recorda-se Maria de Lourdes.

Voluntária da área da saúde, ela contou com o engajamento de funcionários em ações de solidariedade durante o período de férias coletivas. “Quando vi a necessidade dos hospitais, chamei aqueles que podiam vir trabalhar para ajudar.”

Ela e 40 funcionários colocaram a mão na massa para costurar máscaras, jalecos e outros itens de proteção. “Em vez de ficar em casa pensando na fábrica fechada, gastei meu tempo fazendo o bem.”

A velha receita de sucesso que diz ter aprendido na colônia: trabalhar, fazer o certo e ajudar os outros.​